Diário da Mongólia • Travel

23 de Junho de 2019

Enjaule seus monstros

Por:  Milena Mendes

 

Chegou o verão Mongol! Com ele, vieram também muitas mudanças. Há dois anos e meio, uma jovem jornalista e professora de Inglês, de 24 anos, chegava à Mongólia durante um inverno de -40 graus após deixar a família, amigos, sonhos e verão no Brasil. Passaria dois anos e meio em trabalho voluntário e missionário, e partiria para uma próxima aventura em outro canto do mundo.

 

A proposta da mudança de país era simples: ajudar a transformar a vida de alunos de uma pequena escola particular na capital do país, Ulaanbaatar. Mas o impacto recairia não somente sobre as quase 200 crianças com as quais a jovem trabalharia ao longo do período proposto. Todos à sua volta acabavam sendo atingidos, de alguma forma. Mas, quem mais se surpreendeu com as muitas metamorfoses que a terra de Genghis Khan apresentaria foi a própria voluntária. Eu. 

Era para eu ter deixado a Mongólia em algum ponto nesses últimos dias. Confesso que eu almejava voltar a morar nos Estados Unidos, e esse era um dos planos que eu tinha quando me mudei para cá. Conforme conhecia gente de diversas nacionalidades, convites apareciam para eu visitá-las quando o meu trabalho se encerrasse, agora, nesse Junho de 2019. 

 

Até o sexto mês inicial de vivência por aqui, França, Austrália e Suíça eram alguns dos país para onde eu pesquisava passagens online com saída da Mongólia. Hospedagem era garantida em qualquer um desses que eu escolhesse ir. Fazer carreira em um lugar específico não encaixava muito com meu perfil. Fazer memórias em diferentes culturas ajudando a melhorar a vida de pelo menos uma pessoa num lugar diferente a cada tantos meses ou anos, sim, me descrevia bem na época. 

 

Encarei cada oportunidade que meu novo país oferecia, boa ou nem tanto! Aprendi arco-e-flecha, tomei banho uma vez em cinco dias durante tour pelo país, escalei a duna mais alta do Deserto de Gobi, apresentei noticiário na TV, aprendi a ler em alfabeto cerílico, mudei de endereço quatro vezes, desenvolvi e ensinei um curso de Inglês para um dos distritos governamentais, aprendi a substituir pizza por pão com molho e queijo, e mudei de posicionamento quanto à algumas opiniões que eu tinha em pré-conceito. 

Uma dessas mudanças de opinião foi quanto a um pensamento tosco que começou a me rondar ainda no primeiro ano por aqui, de “não me apaixonar por Asiático algum. Aqui não é meu lugar, e não quero ter que escolher entre relacionamento e destino”. Foram quatro meses relutando para não aceitar que meu coração tinha encontrado morada nos abraços de um Mongol diferenciado de todos outros que eu havia conhecido. 

 

Se você tem acompanhado os capítulos anteriores dessa história, sabe o fim que teve: em Janeiro deste ano, me casei com o Buyandelger (ou, mais curto, Dêgui). Conforme o fim do ano letivo se aproximava por aqui e, consequentemente, do meu contrato proposto com a escola que me trouxera para cá, era inevitável não comparar os planos da voluntária de 24 anos aos da mulher casada, agora, com 27. É incrível como nossa natureza se transforma de acordo com as circunstâncias.

 

Tenho medos das pessoas que vivem na mesmice por tantos anos. Tenho medo do quanto elas podem ter deixado de aprender, agregar à vida, explorar, por receio de saírem da tal zona de conforto. E isso vai de coisas simples, como ter o mesmo corte de cabelo por 15 anos, até mais sérias, como se acomodar em um trabalho que odeia e só lhe traz desgosto.

Minha vida mudou tanto em dois anos e meio. Ainda tenho o sonho de conhecer mais países e culturas. Aprendi que viajar não é sinônimo de gastar dinheiro, mas de investir na nossa própria sanidade. Talvez esse sonho seja interrompido por outro sonho, o da maternidade. O ponto é que não são pessoas que nos fazem desistir ou trocar de planos pessoais. Somos nós mesmos. Somos nós que criamos monstros em nossa cabeça, como o monstro do não-consigo, ou o monstro do é-muito-caro, ou o monstro do quem-sabe-outra-hora. 

 

Se você já perdeu algum amigo ou familiar próximo, tenho certeza que já se colocou no lugar daquele que se foi e pensou, “preciso aproveitar mais a vida, porque vai que ela acaba amanhã”. E quem dera tivéssemos esse pensamento todo dia, principalmente quando os monstros querem calar nossas ações!

 

Estou curtindo algumas semanas de férias, antes de iniciar uma nova jornada. Vou dar aulas de Inglês numa universidade internacional no núcleo de línguas da instituição, e vou seguir na área do Jornalismo (minha profissão) com o Instituto de Imprensa da Mongólia, prestando serviços e treinamentos às instituições de mídia locais. Há alguns meses, alguns dos meus planos eram de dar aula em uma escolas internacionais, porque soube que pagavam muito bem professores estrangeiros, e de aceitar o convite da TV nacional para criar e apresentar dois programas. Mas, a tempo, percebi que trabalhar educando crianças já não me trazia prazer como ensinar jovens e adultos. Percebi, também, que ajudar a monitorar a comunicação de diversas empresas seria mais aprazível que ficar dentro de uma só.

 

Estou feliz com as decisões e, colocando os monstros da minha mente em jaulas, vou seguindo aqui nesse país, com uma nova família que comecei há cinco meses, com trabalhos que trarão bons frutos, conhecendo mais gente do mundo todo e crescendo individualmente. E você, o que faria se pudesse enjaular, também, os seus monstros? 

Willy Macedo
Interplan