Diário da Mongólia • Travel

23 de Novembro de 2018

Redes sociais e os efeitos delas

 

                                                                                             Por: Milena Mendes

Quando eu comecei a usar o falecido Orkut, ainda na adolescência, eu o fiz querendo fazer parte de um grupo social limitado — aquele que tinha acesso à Internet, que expunha a vida pessoal no âmbito digital e que estava fazendo o que todo mundo fazia. Certamente foi assim contigo, também!

 

Lá por 2007, 2008, eu senti que já não pertencia àquele grupo. Decidi migrar para uma outra rede social que nem tinha cinco anos de existência ainda e não era “febre” no Brasil. Vi o Facebook como uma ferramenta para selecionar os amigos com quem eu queria manter contato mas agora naquele universinho ainda não tão descoberto. Literalmente tinha no máximo umas duas centenas de amigos, o que tornava exponencial um número de curtidas em algum post. 

 

Mas, lembro que não demorou muito e comecei a ter aquela falsa sensação de exclusividade indo embora. O número de colegas e amigos meus aderindo ao Facebook só crescia todo dia. Mas lembro, também, que continuava tendo uma certa padronização dos usuários. 

 

Esse ano, quase uma década depois de ter-me tornado usuária dessa rede social, comecei a sentir um certo sufocamento toda vez que checava meu feed. Uma ultravalorização de coisas desnecessárias tornou elementos do dia-a-dia superinteressantes (para alguns). Um passeio de diversão no shopping acabava exposto no Facebook em foto no espelho, ou foto da marca da roupa usada, ou foto do prato de comida, etc. Reconheço algumas “falhas” e me incluo nessa exposição. 

 

Graças à muita gente que trabalha duro para isso, ainda temos (certa) liberdade de conteúdo. Claro, tudo que não condiz com as regras da própria plataforma pode sofrer represália. Mas o que quero dizer é que todo mundo pode postar foto no espelho, ou da marca da roupa, ou da comida. Essa liberdade existe. E é o que atrai muita gente para essas redes sociais. Ver, saber o que o outro está fazendo se tornou necessidade. Se tornou, olha isso, emprego para tantas pessoas, pagando absurdos de milhares e até milhões simplesmente pelo fato de serem chamados “influenciadores”. E isso só se permitiu existir após muito tempo acompanhando o perfil dos usuários, que eram peixes mordendo a isca do marketing digital.

 

Se o Facebook fosse uma pessoa e eu namorasse essa pessoa, eu diria que no momento estamos dando um tempo. Eu já não conseguia separar o estar na rede para manter contato com meus familiares e amigos distantes, de estar na rede vendo tanta coisa inútil que não agrega nada no meu crescimento intelectual. E é aí que entra um ponto-chave: Facebook é REDE SOCIAL, para entretenimento social, e não crescimento intelectual. Por algum motivo, criei essa mentalidade de que todas as mais de 2 bilhões de pessoas ativas naquele site poderiam utilizar as ferramentas de alcance público para compartilhar informação de utilidade pública, consequentemente. Mas, o que via era um diário, pessoal, mas digital. Acho que seja óbvio, mas talvez precise ser dito, que isso aqui não é uma generalização de pessoas e conteúdo. É uma demonstração do meu círculo, com mais de 2 mil conexões, erroneamente intituladas “AMIGOS” na rede.

 

Aqui na Mongólia, o Facebook é extremamente tido como ferramenta de trabalho. Em Fevereiro de 2017, tive um choque quando comecei a trabalhar na escola onde estou até hoje e tive conhecimento de que e-mail não era utilizado aqui. Transferência de arquivo e trocas de qualquer mensagem entre subordinado e superior eram feitas pelo Facebook. Senti um incômodo tão grande! Não conseguia entender como uma rede de entretenimento social era tão capaz de substituir uma ferramenta de trabalho. Depois de muito “murro em ponta de faca”, percebi que nada que eu fizesse seria capaz de mudar aquela mentalidade. Facebook é muito mais atraente que uma caixa de e-mail porque, entre uma mensagem e outra, há muito conteúdo pra te fazer perder tempo esquecendo do stress do trabalho por alguns valiosos minutos. 

 

Hoje, fazem mais de 20 meses que trabalho nessa escola. Com muita dificuldade, alcançamos algum progresso no uso de e-mail para comunicação oficial no trabalho. Ainda há muita professora que repudia e-mail e insiste que eu envie informação, foto, arquivo, etc pelo Facebook. Mas, desde Outubro ou comecinho de Novembro, não me lembro ao certo, eu não tenho mais uma conta ativa. A surpresa no rosto delas ou de qualquer local quando eu digo que não estou no Facebook é impressionante — me sinto como se estivesse fazendo algo errado que precise de punição. 

 

De acordo com a plataforma de estatísticas Statcounter*, dados de Outubro de 2018 apontam que 75,55% da população Mongol é ativa no Facebook. O país tem apenas aproximados 3 milhões de habitantes. O Youtube é a segunda rede mais utilizada, com apenas 12,63% da população ativa. Instagram aparece apenas em quinto lugar, com 0,37% de usuários em relação aos 3 milhões, atrás de Pinterest (8,26%), Twitter (2,04%) e Tumblr (0,4%).

 

Esses números, no Brasil, são iguais em preferência de redes por maior número de usuários, mas proporcionalmente bem diferente com relação ao número da população local. Para o mesmo período dos dados anteriores, o Statcounter encontrou que 56,78% dos brasileiros são usuários ativos do Facebook, enquanto Instagram aparece apenas com 1,61% de usuários.

 

Em Janeiro deste ano, o Hootsuite (plataforma de gerenciamento de mídias sociais mais utilizada no mundo) e a agência We Are Social, em parceria com outras fontes estatísticas, publicaram um relatório** com dados impressionantes e números assustadores com relação ao uso de redes sociais. A publicação aponta: a população mundial era de quase 7,6 bilhões de pessoas, das quais 4,02 bilhões eram usuários da internet. Desses, quase 3,20 bilhões eram usuários ativos das mídias sociais, sendo que quase 3 bilhões de pessoas acessavam via aparelho móvel (celular, tablet, etc.).

 

Ainda no relatório consta o tempo médio gasto por dia na internet (baseado em pesquisa com usuários da internet entre 16 e 64 anos de idade). O Brasil apareceu em terceiro lugar, com 9h14min, atrás de Tailândia (9h38min) e Filipinas (9h29min). Não foi especificado o controle de sites acessados, mas sim uso da internet em geral. Considere a jornada diária de trabalho de uma pessoa normal. Por que será que nos tornamos TÃO dependentes assim da internet, para tudo, e quando foi que nos demos conta disso? 

 

Das 9h14min gastas em acesso à internet no Brasil, a pesquisa apontou que usuários usavam 3h39min em mídias sociais (Filipinas ocupava o primeiro lugar com 18min a mais que nosso país, o segundo no ranking da pesquisa). É muito tempo. O que fazemos em quase quatro horas? Podemos assistir dois filmes, iniciar e finalizar a leitura de inúmeros livros, assistir palestras (mesmo que online) para aprender mais sobre algum assunto, ir ao mercado fazer compra, voltar pra casa, preparar a janta, jantar, limpar a bagunça, e ainda sobra tempo. 

 

Outro dado encontrado foi que quase um milhão de pessoas começara usar redes sociais pela primeira vez no ano anterior (2017), equivalendo a mais de 11 novos usuários por segundo. A pesquisa é bem elaborada, recheada de dados interessantes. Se você entende Inglês, vale a pena conferir os links deixados ao final desse artigo.

 

Consequências de me desconectar do Facebook: os amigos que realmente se importam em compartilhar algo que lhes acontece vêm falar comigo por mensagem privada; não fico mais sabendo de notícias populares com tanta frequência e/ou na mesma rapidez, como quem casou ou traiu quem, ou sobre a viagem de alguém para um lugar incrível; tenho lido mais, e tenho aprendido mais Mongol (idioma!), nos meus tempos livres; tenho assistido inúmeras palestras pelo TED aprendendo, assim, sobre diversos assuntos de importância relevante; não me irrito mais com postagens desnecessárias e sem valor; a lista continua!

 

Te desafio a fazer uma das seguintes propostas: 1) tire um tempo da rede social em que você mais gasta horas para se desintoxicar de toda estupidez presente nela ou, 2) comece a mudar a forma como você interage na rede, com suas postagens, curtidas, comentários, compartilhamentos; faça mais postagens relevantes a pelo menos alguns de seus amigos mais próximos sobre um tema que lhes interesse. Torne o mundo ao seu redor um pouco mais positivo. Eu acredito que o efeito possa se multiplicar e, quem sabe, a mudança traga resultados muito saudáveis a quem tem precisado dessa ajuda mas não encontra.

 

 

 

http://gs.statcounter.com/social-media-stats/all/mongolia (acesso em Novembro 22)

** https://wearesocial.com/uk/blog/2018/01/global-digital-report-2018 (acesso em Novembro 22)

 

 

Interplan
Willy Macedo