Minhas Corridas • Sinomar

24 de Maio de 2019

MURALHA DA CHINA - Experiência desafiadora sobre 5.165 degraus apontados para o céu

Maratona  na fortificação que um dia guardou as fronteiras do Império chinês reuniu 3 mil corredores de todo mundo

 

Sinomar Calmona

De Tianjin China

 

Correr sobre uma das 7 Maravilhas do mundo é experiência única, sensacional,  traz sensações distintas. Inimigo a vencer não é a distancia, mas os impiedosos 5.164 degraus e rampas inclinadas de até 75 graus, em uma elevação que vai de 200 a 493 metros.

A Maratona da Muralha da China é uma das mais difíceis do planeta. A edição  de 2019 atraiu 3 mil corredores de 28 países, entre eles 48 brasileiros. O percurso é árduo, recompensado por paisagens de tirar o fôlego.

Na concentração os corredores assistem apresentações culturais chinesas e o grito de guerra do povo maori.

A largada é dada quando o sol começa vencer as montanhas, as 7h30 da manhã de sábado, 18 de maio,  em 4 ondas com intervalo de 10 minutos  para reduzir o congestionamento nos pontos estreitos da muralha. O lugar é Tianjin,  vilarejo rural a 120 km de Pequim.

Uma neblina cobre a região e mantém a temperatura por volta de 18 graus, ótima para correr.

O percurso começa subindo, serpenteando a montanha, passando por vilarejos, campos de arroz e fazendas,  contato direto com a China rural e sua amável população que sai às ruas  para aplaudir e incentivar os maratonistas. E’ gente simples que habita uma região remota da China e que quase nunca vê visitantes.

São comunidades rurais pobres, mas sem favelas à vista. As casas pequenas, de tijolos, se empilham em ruelas que cruzam a via principal.

Em uma estreita estrada de chão batido, margeiam um rio seco, vazio. No leito sem água, um pastor leva suas cabras pelas pedras. Do outro lado casas simples e pequenas lavouras desafiam o terreno íngreme.

As crianças fazem a festa, cumprimentam os visitantes, gritam um "hello" cantado, a que os estrangeiros respondem com "ni hao!" em chinês castiço.

Fora da área urbana, há plantação dos dois lados da estrada. De vez em quando, ouve-se o canto de um pássaro tal qual os relógios: "Cuuu-co".

 7 horas subindo e descendo escadas com degraus íngremes, irregulares e traiçoeiros.  

 

 

Em outro vilarejo, ao lado da agricultura, a criação de porcos é fonte de renda. À beira da estrada, grandes chiqueiros, antes da entrada da cidade. Diferentemente do que acontece no interior brasileiro, a comunidade não se forma a partir da igreja. Na região chinesa, escola e hospital são os prédios maiores, mais enfeitados.

Após 4 km  o cortejo de corredores entra na muralha o trecho mais difícil da maratona, afinal até completar a prova terão que superar 5.164 degraus de variados tamanhos e dimensões. Motivação de todos é correr sobre um dos monumentos culturais e históricos mais espetaculares do planeta, maravilha arquitetônica construída durante 20 séculos e varias dinastias imperiais, com objetivo de defender a China das invasões dos inimigos hunos, mongóis e Manchus.

Chegada na 20;a edição da Maratona da Muralha da China: conquista de um maratonista amador, mas grande orgulho de ter concluído.

 

 

A imponente e bela muralha serpenteia pelas montanhas do território subcontinental do Norte da China. É a mais longa estrutura construída pelo homem, chegando a 21 mil quilômetros.

Contam que mais de 1 milhão de chineses morreu trabalhando na sua construção. Ergueram uma das 7 maravilhas do mundo antigo. Hoje a maior parte esta’ semi-destruída, mas o governo chinês recuperou alguns trechos e abre para visitação dos turistas.

As primeiras escadarias são uma beleza, com degraus em tijolos cinzentos. Os pontos de descida mais íngremes estão marcados com tinta branca. Com a mesma profundidade, os degraus em cada lance não são da mesma altura.

Apesar de difícil, o percurso é mais ou menos normal até a torre que marca o ponto mais alto do percurso sobre a muralha, cerca de cem metros acima do local em que os corredores entraram. A partir daí, o piso é de rochas irregulares. As passagens são estreitas, as descidas são íngremes, escorregadias, e em vários pontos não há paredes.

Começam os trechos de fila indiana. Encostados no paredão, agarrados a um corrimão improvisado, os corredores tentam ficar o mais longe possível do lado onde não há proteção – as paredes da muralha têm em média dez metros de altura, ao lado de verdadeiros abismos. Nesse trecho não há  como correr. O perigo de acidentes e’ grande. Todos caminham em fila indiana ate chegar ao fim do primeiro trecho.  

 

Física e mentalmente desgastante, a Maratona da Muralha da China  fadiga os corredores logo no inicio das suas escadarias monumentais. E’ muito tempo subindo e descendo escadas com degraus tão íngremes, irregulares e traiçoeiros.  Esgotados, alguns sentam nos degraus, outros caminham. Alguns se machucam, outros desmaiam esgotados, e são retirados da prova, carregados em macas pelas equipes de socorro espalhadas por todo trajeto da muralha.

Em matéria de dificuldades esta maratona supera todas as outras, mas é a mais bonita: as paisagens são de tirar o fôlego. O cenário e’ histórico, milenar, lindo, cinematográfico, espetacular e gigantesco. Um mergulho na história, não só da China, mas da própria humanidade.

A organização da prova estipulou tempos limites para os participantes.  A prova seria encerrada com tempo limite de 8 horas.

Concentrei no foco: a chegada. Me vi com a medalha nas mãos. Busquei forca mental, lembrando o treinador Eliseu Sena, que sempre diz “a cabeça é o músculo mais importante que se tem numa Maratona”. Aquela hora que um quilômetro parece que nunca passa... Mas degrau por degrau, cheguei lá.

Corpo tremia de emoção e felicidade ao cruzar a linha de chegada. O esforço  valeu a pena: mera conquista de um maratonista amador, mas grande orgulho de ter concluído. Nunca esquecerei o que passei, as dores dos últimos degraus... sei que isso me fortaleceu.  

Não me sinto melhor que ninguém, mas saí daquela muralha mais forte e resistente para outras provas e para a própria vida.

Só sei que posso alcançar tudo que sonhar, desde que trabalhe muito duro para isso.

Enfim, trago na bagagem além da medalha, a satisfação e a experiência única de correr na maior fortaleza do planeta. Passar por aldeias chinesas e pelos campos de arroz, e

crianças dando High- Five (toque de mãos) ficará marcado para sempre na minha mente!

 

 

 

Willy Macedo
Interplan