Diego Ariça Ceccato • Articulistas

23 de Junho de 2019

"O Papel do professor no ensino híbrido"

A educação brasileira há tempos vem se tornando sinônimo de fracasso. Sinal disso é nosso desempenho em avaliações externas. Sempre ficamos nas piores posições frente ao restante do mundo. Esse não é o único efeito do nosso sistema escolar. Se ao menos nossa educação técnica fosse falha mas nossas escolas fossem ambientes agradáveis onde alunos e professores tivessem o prazer de vivenciar, vá lá, poderíamos ao menos usar isso a nosso favor. No entanto, nem disso podemos nos orgulhar. É público e notória a falta de vontade em frequentar o ambiente escolar, tanto por parte dos estudantes quanto dos professores. Há exceções, é claro, mas via de regra, para usar um clichê, nossa educação está na UTI. O problema é complexo, de difícil solução e muitas vezes causas e consequências se confundem, tornando tudo ainda mais complicado.

Uma das vertentes a serem atacadas para a melhoria de ensino é o modelo de sala de aula. Nesse sentido, o ensino híbrido tem se mostrado bastante interessante tanto na melhoria da aquisição de conhecimento dos alunos quanto na satisfação em frequentar o ambiente escolar. Nesse modelo, há uma mistura de atividades virtuais e presenciais, de atividades utilizando metodologias diferentes. O foco principal é a personalização do ensino, reconhecendo que é preciso entender e valorizar as diferenças existentes entre os estudantes. No meu artigo “afinal o que é ensino híbrido” é possível ver mais detalhes deste modelo de ensino e aprendizagem. Já no artigo “O espaço escolar e o ensino híbrido” escrevi sobre alguns pontos importantes referentes à organização do espaço escolar no modelo de ensino híbrido. No entanto, muitos ainda me questionam sobre o real papel do professor nesse modelo. Muitos ainda acreditam, erroneamente, que o professor no modelo de ensino híbrido, se torna descartável, facilmente substituído por recursos tecnológicos. Pretendo nesse texto desmistificar um pouco essa questão e discutir sobre o real papel do professor nesse processo.

A primeira coisa que precisa ser dita é que o professor, ou melhor, o bom professor não precisa ter medo de ser substituído pela tecnologia. O que o professor precisa entender na verdade é que aula não se resume ao modelo expositivo e que ele não é detentor de todas as informações. Na verdade, há muito mais informações fora da sala de aula que dentro. Não estranhe se porventura o aluno encontrar dados ou informações que ele professor, ainda não tenha descoberto. Seu papel não é saber tudo que existe sobre determinado tema antes do aluno, mas estar aberto para aprender também com novas informações conquistadas pelos alunos. Isso é trazer o aluno para o centro do processo, valorizar o que ele também trouxe para aula. Se no entanto o professor entender que é seu papel única e exclusivamente trazer informações e expô-las a seu público, bom, aí sim esse professor se torna facilmente substituível por um vídeo do youtube.

A tecnologia dentro do ensino híbrido vem para agregar ao trabalho do professor e não para substituí-lo. Nesse sentido o professor atuará muito mais como um curador de conteúdo. Gosto dessa palavra, curador. O que faz o curador de uma exposição de arte? Dentro de um tema, de uma proposta, faz a seleção das diversas obras de arte disponíveis dentro da temática central, escolhe aquilo que é mais relevante para o seu público. Esse é o processo de curadoria o qual o professor também precisará aprender nesses novos tempos. Imagine qualquer assunto a ser ensinado a um grupo de jovens. Qualquer assunto. Agora imagine a quantidade de informações disponíveis sobre esse assunto em livros, revistas científicas, revistas populares, sites de internet, redes sociais, etc. É papel do professor investigar diversas fontes, e levar para seus estudantes aquele conteúdo que mais se adeque aos objetivos de sua aula, de sua disciplina e que melhor se adeque também ao público que ele está trabalhando. Novamente, está fadado a ser facilmente substituído aquele professor que segue um único a livro, há mais de 20 anos, capítulo por capítulo. O livro sim precisa ser usado, mas o professor deve estar aberto a novos meios pelos quais a informação se apresenta.

Além de curador, o professor no ensino híbrido deve ser também um mediador. Mediar o quê alguns me perguntariam. Mediar a forma como a qual os alunos terão contato com as diversas informações disponíveis. A exposição, ou a aula expositiva é uma das formas de se fazer essa mediação, mas não a única e nem a mais eficaz. O professor deve mediar essas informações com atividades diversas que se adequem a sua turma. Existem diferentes formas de se fazer isso, como aprendizagem por projetos, a aula invertida, a aula utilizando a rotação por estações, seminários e tantos outros. Por isso mediar. Mediar a forma pela qual essa informação chegará até o aluno, lembrando que o foco do processo deve ser o estudante e não o professor.

Ao colocar o estudante como foco no processo de ensino e aprendizagem, o professor deve ouvir as suas expectativas em relação à disciplina, saber sobre seus interesses, mostrar a relação da disciplina com outras do curso e com a atividade profissional, saber o que o estudante já sabe sobre o assunto e como aquela informação foi obtida. Tudo isso para preparar o cenário e desenvolver o conteúdo da disciplina com atividades híbridas, colocando o aluno em foco, reconhecendo e valorizando as diferenças entre os estudantes.

Por fim eu diria que o papel do professor é o de facilitador. Através do processo de curadoria e mediação, o professor deve então ser responsável por facilitar a aprendizagem do aluno e não por torná-la desestimulante.

Para aqueles que ainda acreditam que as metodologias ativas, as tecnologias da informação e o ensino híbrido irão substituir o professor, eu diria que não há com que se preocupar, exceto os maus professores, é claro.

 

Diego Ariça Ceccato - "educador e professor universitário"

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