Diego Ariça Ceccato • Articulistas

28 de Agosto de 2019

Um lugar de fala seguro para os estudantes

 Um dos pilares das metodologias ativas de ensino e aprendizagem é dar voz ao estudante, deixar com que ele seja protagonista do processo educacional, dar vazão às suas ideias, às suas realizações e aos seus anseios. Enfim, é deixar que o estudante traga à tona seus conhecimentos, participando de forma ativa de sua aprendizagem como ser autônomo e não somente ouvindo e reproduzindo aquilo que o professor diz.

No entanto, uma das reclamações que sempre ouço de meus colegas professores é que quando eles procuram oportunizar espaços de fala para os estudantes em suas aulas o que acaba acontecendo é um grande silêncio, ou como ouvi um professor na rádio esses dias, quando chamamos os estudantes a se posicionarem frente a um tema, o que observamos é um grande “deserto de ideias”. Como romper com esse paradigma e conseguir aumentar a participação dos estudantes? Há alguns caminhos que pretendo apontar nesse texto, algumas técnicas que podem ser utilizadas e alguns cuidados que precisamos tomar.

Aproveitando a analogia de meu colega, faz sentido os estudantes terem o tal deserto de ideias quando se está acostumado ver os professores com um latifúndio de fala. É natural que após anos ouvindo professores falarem por quase 90% do tempo da aula os estudantes quando são convidados a participar de forma ativa se sintam acuados. Muitos se sentem intimidados, envergonhados e receosos de falar, de mostrar seu trabalho e suas ideias. Faz sentido esse receio? Eu diria que sim. Muitos professores dizem que gostariam que seus alunos participassem mais, no entanto quando participam, muitas vezes os professores imediatamente corrigem os alunos quando é o caso de estarem errados, algumas vezes fazem caretas das ideias dos estudantes e no pior dos casos até debocham daquilo proposto pelos estudantes, mesmo que de forma velada. Percebam, qual estímulo os estudantes terão para se expressar em um ambiente desse? Alguns professores dizem que isso é consequência do mundo mimado no qual os jovens estão hoje, que nunca podem ser contestados e corrigidos. Há aí uma meia verdade. É possível que essa geração de jovens tenha um sentimentalismo mais aflorado e que tenha mais dificuldades para lidar com o não. Há alguns estudos que de fato apontam para esse caminho, uma dificuldade tremenda de serem contestados. A questão aqui no entanto é outra. O ponto é, quem gosta de ser ridicularizado frente a outras pessoas? Ou se não ridicularizado, mas de ter seus erros expostos? Nenhum estudante irá se expressar em uma sala de aula sabendo que seu erro será exposto perante os demais. A não ser que seja um aluno que tenha certeza da resposta correta, mas esses são aqueles que menos precisam da aula, certo? Usando a analogia do médico, só vai ao hospital aquele que está doente... Mas então como fazer para estimular os alunos a se expressarem? Precisamos criar um ambiente de fala seguro para os estudantes, um lugar no qual eles saberão que seus erros serão sim corrigidos, mas não julgados pelo erro.

Em primeiro lugar, é preciso que o professor sempre esteja disposto a de fato ouvir com atenção o que o aluno tem a dizer e a apresentar, sem nenhum tipo de prejulgamento. Sempre que o estudante cometer erros, não o corrija imediatamente. Procure algo em sua fala que tenha valor e comece enaltecendo isso. Depois peça para que explique melhor suas ideias. Junte outros estudantes à discussão. É melhor que os estudantes sejam corrigidos pelos seus pares que pelo próprio professor. Vá então aos poucos mostrando os erros de suas ideias, trilhando junto com ele um caminho que leve ao conceito correto. Me lembro até hoje em uma aula na minha graduação na qual o professor convidou alguém da sala para propor na lousa uma equação que representasse uma reação química que estávamos estudando. Eu como sempre fui muito participativo, me propus a ir até a lousa. Não me lembro mais o que propus, me lembro apenas do professor indignado com a minha resposta, me dizendo que era um absurdo um aluno no meio do curso  cometer os erros que cometi.  Desde então eu me fechei totalmente naquela disciplina. E eu nunca fui sentimentalista e sempre considerei aquele um bom professor e continuo considerando, mas não queria mais ser exposto. Por isso eu repito, precisamos criar um ambiente de fala seguro aos estudantes.

Outras técnicas mais específicas, porém simples, são possíveis. Uma delas é o quadro de sistematização SQA. Nesse quadro a letra S representa o “sei”. Será onde os estudantes irão escrever aquilo que já sabem sobre um determinado tema. A letra Q é de” quero saber” e nela os estudantes podem escrever o que anseiam por aprender. A letra A é de “aprendi” e os estudantes são convidados ao final do processo para preencherem. Dessa forma criamos um espaço na sala de aula onde os estudantes podem colocar suas ideias sem necessariamente se identificarem.

Há também a possibilidade de usar duas técnicas associadas que é o “brain dump” e o “five pass card”. Na primeira os estudantes irão escrever em uma folha tudo o que sabem sobre um determinado assunto. Essa folha não será identificada. Na segunda técnica, o five pass card, os estudantes passarão para frente aquilo que haviam escritos e trocarão essa folha entre si cinco vezes, garantindo que elas estejam todas embaralhadas e seja improvável saber quem escreveu determinado conteúdo. Depois algumas dessas ideias serão lidas pelos colegas de sala.

Há aplicativos que também podem ajudar nesse processo, como o Mentimeter, no qual os estudantes vão colocando ideias sobre um determinado tema e as interações são projetadas em tempo real, sem identificação. Seja usando tecnologia digital ou recursos mais simples, quem quer trabalhar com metodologias ativas precisa criar um ambiente propício para a manifestação dos estudantes. Pode parecer um desafio no começo, mas ao passo em que os alunos se sentem mais à vontade para se expressar, mais interações vão acontecendo até que o processo se torne natural.

 

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