Diário da Mongólia • Travel

03 de Setembro de 2019

UM QUASE ENCONTRO COM VLADIMIR PUTIN

Por:   Milena Mendes

 

Eu nunca imaginei conhecer nenhum presidente de países. O que aconteceu aqui na capital da Mongólia nesta terça-feira, 3 de Setembro, foi só mais uma das surpresas que o país constantemente oferece. A diferença é que, desta vez, foi num nível presidencial!

 

O atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, esteve por aqui para tratar de assuntos com o presidente Mongol, Battulga K., e outros membros do Parlamento. Para tal visita de Putin, o governo Mongol declarou feriado na cidade para o dia 3. 

 

Contudo, era para eu estar trabalhando, não fosse a decisão dos meus próprios alunos de adiantarem o conteúdo para a aula da segunda-feira. Compromissos cancelados na universidade, decidi ficar em casa cuidando de uma gripezinha que parecia querer me pegar.

 

Estava terminando de limpar a casa quando eu vi uma informação online que mudou os planos do meu dia. Dentre os compromissos do governante, um deles atraiu muita gente curiosa (incluindo eu) à praça Sukhbaatar, onde está localizado o Parlamento Mongol. Ele entraria pelas portas da frente, acesso possível somente pela praça. 

 

                

 

Decidi me arrumar e sair de casa afim de tentar ver no que dava a minha curiosidade. As ruas laterais de acesso ao Parlamento estavam interditadas pela polícia. Estacionei não muito longe e segui tentando encontrar ruelas dentre os prédios e chegar o mais próximo possível da barreira de proteção. Fiquei longe, a câmera do celular é horrível, e não consegui ver o Presidente de forma clara dentre o grupo que o cercava. Fui almoçar e voltei para um café num prédio defronte ao Parlamento, pois tinha uma reunião marcada via Skype e usaria a internet por lá.

 

A escolha do local foi, sim, estratégica. Eu sabia que a qualquer momento Putin sairia de lá e, na minha expectativa intrínseca à minha personalidade jornalística, fiquei na esperança de ver algo acontecer. Reunião encerrada, pensei em voltar para casa. Ao me levantar, comecei a ver movimentos policiais no prédio onde eu estava, que funciona como uma galeria com lojas e restaurantes.

 

Aos poucos, a movimentação de repórteres e homens de terno com seus fones de ouvido intercomunicadores aumentava. Não acreditei no que estava acontecendo! Subi aos andares superiores porque vi repórteres tomarem o elevador. Em vão. Não consegui ver aonde foram. Fingi esperar uma companhia no maior restaurante da galeria, mas não vi nada suspeito por lá também. 

 

Desci ao andar térreo onde fica o café que eu estava usando. Sentei novamente e continuei acompanhando o que veio a desenrolar como prédio cercado por policiais, testes dos elevadores e portas automáticas, acesso externo negado, saídas por portas específicas, e mais e mais agentes portando credenciais chegavam. 

 

Dois repórteres Russos chegaram ao café. Também portando credenciais, me pareciam esperar pelo mesmo que eu. Um ficou, a outra saiu. Já na angústia por querer saber o que estava acontecendo, me aproximei dele e perguntei se falava em Inglês, ao que ele respondeu “I only speak Russian”, isto é, “Eu só falo Russo”, em Inglês. Não contive a risada irônica diante da resposta, e voltei ao meu lugar. Foi quando um agente Russo veio comprar uma bebida e notei música acontecendo na maior loja de caxemira do Mundo, segundo a fachada da própria loja. Até me questionei, "Será que o Putin tá por lá?". Fui conferir, mas não o vi na loja. 

 

Foram quase duas horas de observação. De repente, policiais desapareceram. Um ou outro homem de terno continuou rondando a entrada bem próxima de onde eu estava. De três, uma. Ou havia uma entrada externa sobre a qual não sabemos e por onde ele entrou; ou era um teste para a vinda mais tarde para um possível jantar ou, a mais provável, ele não entrou no prédio e toda a segurança era apenas para ele sair do Parlamento e nós, que estávamos dentro da galeria, não termos acesso à rua.

 

Turistas coreanos com câmeras e lentes de longo alcance também me faziam companhia na curiosidade. Mas, cederam, e foram embora. Também foram os dois Russos. Eu não queria ceder, porque havia um agente que ainda rondava os elevadores. Ele foi, inclusive, o primeiro que notei chegar e começar verificações no prédio. E, meia hora depois de terem ido, os repórteres Russos voltaram. Um deles abriu uma mochila e começou a arrumar microfone e baterias. A curiosidade aguçou ainda mais! 

 

A fome apertou e fui fazer um pedido. No caixa, estava uma moça que eu tinha observado trabalhar na segurança da galeria. Gentilmente, em Inglês, ela me ofereceu fazer o pedido antes dela. Perguntei o que estava acontecendo por aqui, e ela disse que o Primeiro Ministro da Mongólia estava jantando com a equipe dele no restaurante onde eu tinha checado por repórteres. Perguntei sobre toda a segurança e agentes de mais cedo, se era algo relacionado com Putin. E ela disse que sim, ele esteve aqui. Enquanto eu também estava. 

 

Fiquei decepcionada! Eu tinha a consciência de que a probabilidade de cruzar com o presidente Russo era próxima a zero. Mas, aquela esperança de estar no lugar certo na hora certa me levou a estar no mesmo prédio em que Vladimir Putin estivera, provavelmente a menos de 200m de distância dele que é líder de uma das maiores potências do mundo. Por isso, eu digo: se não há regras sendo quebradas, se não há mal sendo cometido, arriscar algo pode levar a muito, enquanto se esquivar pode levar à decepções. Então, tente! Seja no trabalho, na rua, no shopping ou num café. Você pode ter uma história para contar mais tarde.

 

 

Willy Macedo
Interplan