Diego Ariça Ceccato • Articulistas

31 de Dezembro de 2019

Último texto de 2019: Considerações subjetivas sobre os Estados Unidos

Nesse ano de 2019 (que se encerra hoje) estou visitando os Estados Unidos pela sétima vez. Minha estréia por essas terras se deu quando eu tinha 15 anos, na entrada do milênio no ano 2000. Na maioria das vezes foram viagens curtas que duraram no máximo 20 dias, exceto pelo ano de 2007 no qual vivi aqui por 5 meses e tive a oportunidade de durante um mês fazer um curso de inglês na State University of New York. O motivo central da viagem é sempre o mesmo. Como muitos de meus amigos sabem, parte da minha família se mudou para cá em 1998. Claro que além de visitar minha mãe e minha irmã sempre aproveito para turistar, fazer algumas compras (a depender do valor do dólar), e também procuro sempre observar e refletir sobre a sociedade americana.

Pretendo então nesse texto fazer uma pequena reflexão sobre alguns aspectos da sociedade desse país que é minha segunda casa, se assim posso dizer. Por óbvio, não tenho a pretensão de fazer uma análise precisa, científica e totalmente objetiva afinal não tenho embasamento teórico e nem vivência suficiente. Minha visão é limitada pelo pouco tempo que passo aqui e pela pequena parcela de lugares que visito. Os Estados Unidos, assim como o Brasil é um país de dimensões continentais. É também razoavelmente heterogêneo, não tanto quanto Brasil, mas ainda sim o é, o que dificulta falar do país como unidade. Minha vivência sempre se dá mais a nordeste, nos estados de Nova Iorque, Massachusetts e Connecticut e algumas vezes mais ao sul, no estado da Geórgia. Procurarei então trazer algumas impressões e conclusões subjetivas. São vários os pontos que merecem comentários sobre a vida aqui nos Estados Unidos, mas nesse artigo vou me ater a apenas dois.

Gostaria de começar comentando sobre o acesso dos negros no mercado de consumo. Sempre comento com minha esposa como a população negra no Brasil infelizmente está à margem de nossa economia. Se você não percebeu isso ainda caro leitor que vive no Brasil, quando estiver em uma praça de alimentação de um shopping observe ao seu redor quantas são as famílias negras ali. E olha que nem estou falando de um lugar assim tão caro. Por anos quando lecionei em colégios particulares e era raro ter alunos negros na sala e quando havia eram no máximo 1 ou 2 em uma sala de 40 estudantes. Esse padrão de poucos negros com acesso se repete em diversas outras situações. É o que Caetano Veloso chamaria de “pretos de tão pobres e pobres de tão pretos”. Por outro lado nos Estados Unidos boa parte dos negros já conseguiram entrar na sociedade de consumo o suficiente para possuírem além das mercadorias de necessidades básicas. A quantidade de famílias negras consumindo em shoppings, restaurantes e lojas de classe média é considerável. Claro que os Estados Unidos é um país mais rico que o Brasil então na média, pretos e brancos americanos terão mais acesso que pretos e brancos brasileiros. A questão é que a proporção de negros que conseguem ter acesso por aqui é muito maior que no Brasil. Isso não significa

que não haja preconceito e discriminação por aqui, minha impressão é que há, mas essa é outra discussão. O ideal é que ninguém sofra preconceito devido a cor de sua pele (ou qualquer outro motivo) mas eu diria que entre sofrer preconceito tendo boa alimentação, casa, carro e acesso a lazer e cultura e sofrer preconceito sendo miserável, a primeira opção te possibilita lutar mais e melhor contra as opressões.

Falando em consumo, esse é outro ponto a ser considerado. É impressionante como os americanos (ou estadunidenses para os mais chatos) são consumidores vorazes. Claro que esse consumo em excesso é consequência da facilidade de acesso já discutida, mas ainda assim, é algo assustador e isso tem alguns desdobramentos. Apontarei dois. Primeiro é a variedade de produtos que são oferecidos. Nada mais natural que em uma economia pujante como essa, com cidadãos ávidos pelo consumo, o mercado se movimente para oferecer uma vasta gama de mercadorias. É possível se encontrar de tudo dos mais diversos tipos e marcas. Quer um refrigerante? A variedade é tamanha que é quase impossível escolher. Fiquei quase 10 minutos travado aqui no texto tentando encontrar uma forma de descrever as prateleiras dos mercados. Infelizmente não me ocorreu nenhuma palavra precisa, mas é algo fora do comum, você é o tempo todo bombardeado por centenas de produtos de tamanhos, cores e formatos diferentes. O mesmo vale para carros. São tantos que é impossível se familiarizar com todas as marcas e modelos. Isso se repete para qualquer outro produto que se possa imaginar. O segundo desdobramento dessa sociedade do consumo é o que eu chamaria de sociedade do descarte. O tanto de coisas que vai para o lixo ou que “precisa” ser trocado pelo modelo mais novo é de saltar os olhos. Não vou cair na ladainha de que os Estados Unidos utilizam a maioria dos recursos do mundo e por isso são responsáveis pela pobreza de outros países. Acho esse um discurso velho, que cheira a naftalina. Outros países deveriam ao invés de adotar esse tipo de fala procurar entender como se produz tanta riqueza por aqui. No entanto cabe a reflexão: Será que precisamos de tanto para viver? Ou para ir além do óbvio, será que viver com tanto faz bem a nossa alma? Será que uma sociedade menos pautada no consumo não poderia encontrar prazer ou até quem sabe felicidade em coisas mais simples? Para adentrar na minha área, é possível através da educação formar cidadãos que consumam de forma mais consciente e equilibrada? Ficam perguntas para as quais não me atrevo dar nenhuma resposta.

Diego Ceccato

Professor e Educador. e-mail: diegoceccato@gmail.com

whatsapp: (18) 99135-3505

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