Diário da Mongólia • Travel

16 de Março de 2020

LIDANDO COM O CORONAVÍRUS

Por: Milena Mendes


 

Esse ano de 2020 começou trazendo desconforto e pânico aqui na Ásia, após o primeiro caso do novo coronavírus (COVID-19) ser reportado no dia 31 de Dezembro de 2019, na cidade de Wuhan (China)*. O nome “novo” coronavírus dá-se não em questão de novidade temporal, mas sim pelo fato de ser uma novidade em conhecimento da OMS.


 

De acordo com o site oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS), diversos tipos de coronavírus compõem uma família vasta de vírus que causam doenças desde a gripe comum à doenças mais severas, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). A OMS reportou SARS em 2003 no Vietnam, enquanto MERS veio a ser confirmada em 2012 na Arábia Saudita. 


 

Como a maioria que segue o blog já sabe, eu vivo em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, há pouco mais de três anos. Geograficamente, Ulaanbaatar está a aproximados 661 quilômetros de Zamiin-Uud, a cidade Mongol que faz fronteira com Erenhot, China. Erenhot, por sua vez, está a 1.800 quiômetros, aproximadamente, de Wuhan, cidade na qual o COVID-19 emergiu. 


 

A distância aproximada total de UB a Wuhan é de 2.461 quilômetros. Para se ter maior noção, a distância entre São Paulo (SP) e Maceió (AL) é de 2.500 quilômetros, aproximadamente. Isso significa que a distância ainda é muito próxima entre nós e o epicentro do novo coronavírus.  


 

Aqui, por causa do inverno castigador com temperaturas abaixo dos -30C e má qualidade do ar, é comum crianças desenvolverem problemas pulmonares e respiratórios. Por isso, existe um tipo de férias escolares entre Dezembro e Janeiro, todos os anos, para evitar exposição das crianças à tais circunstâncias. 


 

No dia 6 de Janeiro deste ano, o Gabinete do Parlamento Mongol anunciou extensão no período de férias em mais uma semana, devido ao aumento na internação hospitalar de crianças abaixo de 16 anos de idade, das quais 85% eram crianças abaixo de quatro anos.**


 

Atualmente, eu sou professora do centro de língua Inglesa em uma faculdade que faz parte de um grupo educacional com base em Singapura. Uma semana apenas após o retorno às aulas das férias de inverno, o governo Mongol anunciou o cancelamento de aulas nacionalmente como medida emergencial de prevenção à contaminação do COVID-19. Até então, nenhum caso da nova doença havia sido confirmado localmente. O retorno às aulas estava previsto para dia 2 de Março.


 

A fronteira de acesso entre Mongólia e China foi fechada na última semana de Janeiro, para evitar aumento na movimentação de pessoas devido às celebrações do Ano Novo Lunar Chinês e Mongol (em datas diferentes, mas entre meados de Janeiro ao final de Fevereiro). Vôos de ida e vinda de Ulaanbaatar para Pequim e Hong Kong foram cancelados ainda nos primeiros dias de Fevereiro. 


 

Por volta da segunda semana de Fevereiro, foi anunciado que as aulas não retornariam dia 2 de Março, e que o período seria extendido até dia 30 do mesmo mês. Para séries até o Ensino Médio, crianças estão assistindo aulas via televisão de acordo com a série e a matéria, programação exigida pelo governo local para que a Educação no país não parasse nesse período de quarentena. Os professores enviam e recolhem tarefas de casa via comunicação por Facebook com os pais de alunos. 


 

Para a Educação de nível universitário, diversas opções foram dadas para continuar as aulas online. A decisão foi deixada nas mãos dos próprios professores. Na instituição onde eu trabalho, o departamento de Inglês parou. Não vejo meus alunos desde a suspensão de aulas. Os demais cursos de bacharelado continuam com as aulas sendo oferecidas online, mas há reclamação geral dos professores com relação ao descaso dos alunos em seguirem estudando e cumprindo com as obrigações dos cursos. 


 

Logo que tudo isso começou a acontecer, em Janeiro, a população passou pelas mesmas atitudes de pânico que, hoje, tenho visto acontecer nos Estados Unidos. O medo de espalhar o vírus fez com que pessoas inundassem lojas e supermercados e estocassem alimentos. 


 

Eu sempre usei máscara própria para poluição atmosférica aqui durante os invernos — bem como quase todo estrangeiro. Mas me surpreendi demais ao ver os Mongóis usando as máscaras nesse inverno, para se protegerem do vírus. Uma população nacional em torno dos 3 milhões não pode brincar com o risco de infecção espalhando por aqui.


 

O primeiro caso de contaminação aqui na Mongólia foi confirmado na última terça-feira (10). Um Francês, homem de negócios no país, retornou de uma viagem de rota Moscou-Ulaanbaatar no dia 2 de Março e, dia 7, começou a ter febre. Tendo testado positivo para o teste preliminar do COVID-19, foi posto em isolação. Contudo, ele não seguiu a recomendação médica e continuou com reuniões e em contato com outras pessoas. Por fim, três dias depois, foi confirmada a infecção. Até o momento, 207 pessoas que tiveram contato com o Francês foram testadas com resultado negativo para o vírus.**


 

As estradas de acesso do interior à capital estão fechadas. Museus, cinemas, boliches, pistas de patinação no gelo e discotecas estão fechados. Bares e restaurantes têm, por lei, que fechar às 22h. A agenda de ônibus foi refeita temporariamente. Todos os vôos estão cancelados até dia 18 de Março. Lojas de comércio foram fechadas. Apenas supermercados e mercearias continuam abertas. 


 

Quanto à mim, na terça-feira em que foi anunciada a confirmação do primeiro caso de COVID-19, coincidentemente, eu amanheci sentindo um resfriado. Sem mesmo ter lido notícias, fui trabalhar normalmente. Menos de meia hora no trabalho, meu marido me escreve, preocupado, me informando das novidades daquela manhã. No sábado, eu havia estado com ele e mais dois amigos num restaurante no mesmo prédio por onde o Francês havia passado um dia antes. Médicos estavam pedindo que as pessoas que tivessem circulado por uma lista de locais onde o homem passara fossem examinadas. 


 

Fomos, então, ao Centro Nacional de Doenças Infecciosas. Encontramos uma fila de aproximadamente 10 pessoas esperando do lado de fora do prédio, à porta de uma pequena sala de atendimento. O frio estava por volta de -10C naquela manhã. Quase 40 minutos de espera, fomos chamados. Inicialmente, duas atendentes médicas nos receberam. Mediram nossa temperatura, pressão sanguínea, e a capacidade de oxigênio no corpo. Depois de alguma conversa, uma sai e volta com outra atendente. Essa, por sua vez, começa uma entrevista com várias perguntas. Ela preenche um formulário e nos entrega, com a recomendação de que ficássemos reclusos em casa por 14 dias, para não correr o risco de contração do vírus.


 

E aqui estou! Não acho que seria o fim da minha vida se eu ficar infectada com o vírus. Ele é similar aos sintomas da influenza (gripe) e, com um sistema imunológico forte, as chances de recuperação são 100%. Para evitar, contudo, não saio do apartamento onde moramos há seis dias. Meu marido saiu rapidamente dois dias para compras de alimentos, e encontrou ruas desertas e zero trânsito.


 

Em Pequim, grandes lojas como a Apple já estão reabrindo.*** O caos está só chegando em outros países aí do outro lado do mundo. Por aqui, já vemos dias melhores e a possibilidade de volta à vida social normal. Não se desesperem, mas protejam-se. Lave as mãos constantemente com sabão, cubra o rosto com o braço (não a mão) ao espirrar e tossir, evite contato físico como cumprimentos com outras pessoas, trabalhe de casa (se possível), e não tenha vergonha de usar máscara! Tudo vai ficar bem. 


 


 

*Informações do site oficial da Organização Mundial da Saúde.

**Informações do site de notícias Montsame, veículo oficial do governo Mongol.
***Informações do site de notícias The Guardian.


 


 

Milena Mendes

O Imparcial
Willy Macedo