Diário da Mongólia • Travel

30 de Dezembro de 2020

Retrospectiva Mongólia: País se destacou mundialmente pela forma que conteve o COVID-19

Por Milena Mendes

 

Parte 1

 

Fim de ano é sempre a mesma coisa: olhar pra trás e pensar em tudo que deu certo e se encontrar preso nas memórias do que deu errado, também. Mas, com o início do novo ano em mente, o foco positivo toma conta.

 

Inegável é pensar em 2020 como tendo sido um ano incrível. Seja pelo bom ou pelo mau, foi um ano que arrancou fortes suspiros da gente. Esse ano, que começou com grandes expectativas conforme uma nova década bateu à nossa porta, foi incrível e será inesquecível para muitos. 

Saudações de lutadores de wrestling no Naadam. Fonte: Montsame 

 

No final de Dezembro de 2019, aqui na Mongólia surgiram rumores sobre uma nova doença que começara a circular aqui na nossa vizinha, a grandiosa China. A Educação Mongol estava em férias de inverno, então crianças estavam seguras dentro de casa.

 

Vou fazer uma retrospectiva dos mais importantes eventos desse ano, por mês mas não todos eles.

 

JANEIRO

A quase congelante virada de ano, em temperatura externa de quase -40 graus celsius, foi celebrada por muitos assistindo aos fogos de artifício e concertos na praça do Parlamento ao centro da capital mongol, Ulaanbaatar. Ela trazia planos e expectativas tão brilhantes quanto os fogos que queimavam no céu na madrugada daquele Janeiro 1. 

 

Apenas uma semana após retornarem às aulas, escolas até o Ensino Médio foram fechadas. Havia chegado a confirmação de um novo vírus que estava se alastrando rapidamente na cidade chinesa de Wuhan, localizada a apenas aproximados 2.400 quilômetros de Ulaanbaatar. Esse número é equivalente à distância entre as cidades de São Paulo e Maceió. 

 

Me lembro bem do medo entre colegas de trabalho e o pavor da incerteza da nossa segurança e dos pouco mais de três milhões de habitantes da Mongólia. As máscaras faciais eram, até então, daquelas para proteção contra a poluição de inverno causada por enormes queimas de carvão, mas logo tornaram-se proteção contra o vírus. 

 

FEVEREIRO

O mês de celebração do maior feriado nacional, o início do Ano Novo Lunar mongol, trouxe mudanças que se mostraram eficientes na luta contra o novo vírus. O Governo decidiu fechar as fronteiras terrestres (com China e Rússia), voos internacionais foram suspensos, e as estradas de acesso do interior à capital foram fechadas. Apenas voos fretados estiveram em operação, para repatriar mongóis que vivem em outros países e trazer estrangeiros que vivem aqui.

 

Para evitar aglomerações de pessoas, celebrações tradicionais públicas do feriado foram canceladas. O comércio popular foi mantido fechado por um período de três semanas, antes, durante e pós feriado, com exceção de grandes supermercados e farmácias. 

 

Universidades também foram forçadas a fecharem as portas. Pela primeira vez na história da Mongólia, aulas passaram a ser transmitidas em diferentes canais de televisão para crianças do Ensino Infantil ao Médio e também via internet. 

 

 

MARÇO

Um voo fretado vindo da França trouxe um passageiro contaminado com o COVID-19. A confirmação veio no dia 10, data que marcou a explosão de um xenofobismo ainda não visto nem experienciado por muitos estrangeiros que viviam na Mongólia há anos. 

 

Desobedecendo a ordem médica que recebera de ficar em auto-quarentena por duas semanas, o Francês atendeu reuniões e foi a diversos locais públicos — dentre eles, um restaurante. O Governo logo divulgou uma lista dos lugares por onde o homem havia passado e convocou as pessoas que estiveram no mesmo local que ele a fazerem o teste do COVID-19. 

Testes de COVID-19 na Mongólia. Fonte: Montsame

Meu marido descobriu que havíamos estado num restaurante no mesmo prédio em que o Francês estivera. Naquela manhã ainda fria de terça-feira, fomos ao trabalho apenas para informar nossos superiores que precisávamos ir ao hospital de doenças infecciosas e fazer um exame. 

 

O exame consistiu apenas de medida de pressão e temperatura corporal. Recebemos a mesma ordem médica de auto-quarentena por duas semanas em casa. Retornamos ao trabalho para entregar o certificado médico e fomos para casa.

 

Foi também em março que me desliguei da universidade onde eu estava trabalhando, como professora no departamento de Inglês. Eu tivera alguns casos de incompatibilidade com o diretor do departamento, e não conseguia tê-lo como líder (fato é que nenhum local se dava bem com ele, e outros estrangeiros também não suportavam seu ar de superioridade). Mantenha essas informações em mente — elas servirão para entender Outubro, na parte 2

 

Vestir máscara em locais públicos tornou-se lei, sob penalidade de aproximadamente R$ 182 reais caso desrespeitada. Policiais passaram a ter permissão para parar transeuntes e penalizá-los caso estivessem sem máscara.

 

 

MAIO

Os números, baixíssimos, de casos de COVID-19 por aqui impressionavam. Parecíamos estar vivendo numa bolha, enquanto assistíamos a tragédia se espalhando pelo mundo. Foi em maio que o Governo permitiu centros de treinamento retornarem às atividades, tais como centros de Línguas, com verificação de temperatura à entrada, número  máximo de dez pessoas por sala com todo um cuidado de distanciamento de 1,5 metro, e uso de máscaras. 

 

Apenas alunos de terceiro colegial, que estavam se graduando naquele semestre (tenha em mente que, aqui, o ano letivo tem início em setembro e encerra em junho), puderam retornar, às salas de aula. Porém, as aulas regulares não haviam retornado. Os formandos receberam treinamento e revisão de matérias específicas que precisariam para o exame correspondente ao vestibular, no Brasil, para serem aceitos em universidades locais. Os mesmos critérios de cuidado dos centros de treinamento foram implementados. 

 

 

JULHO

A despeito de todos os cuidados oferecidos pelo Governo, teve uma coisa que mostrou-se mais forte que qualquer pandemia: manter uma tradição. 

 

Anualmente, o verão mongol atrai milhares de turistas do mundo inteiro para o Naadam, conhecido como os jogos olímpicos mongóis, no qual homens (desde idade infantil) competem em corrida à cavalo, arco e flecha, e wrestling. Com algumas modificações, tais como a não presença de expectadores, os jogos ainda continuaram.

 

A este ponto, muitas pessoas já desacreditavam do perigo todo que esse novo vírus de fato causava, a ponto das autoridades mongóis permitirem o show continuar. Para piorar ainda mais a situação de credibilidade, na cerimônia de posse dos novos membros do Parlamento, com transmissão ao vivo pela televisão, tais parlamentares tinham de ajoelhar-se diante da bandeira do país e tocar uma ponta dela. Alguns até a beijaram. Depois, sentavam-se à uma mesa para assinar documentos oficiais -- todos utilizaram a mesma caneta. Muitos desses nem máscara utilizavam. Isso tudo gerou revolta nas mídias sociais. A despeito da lei, vestir máscara passou a ser algo raro nas ruas, como forma de protestar descumprimento do próprio Governo.

 

Até então, não havia nenhum caso de transmissão local, e zero morte por COVID-19.

Willy Macedo
O Imparcial
Stetnet