Diário da Mongólia • Travel

30 de Dezembro de 2020

Retrospectiva Mongólia: país se destacou mundialmente pela forma que conteve o COVID-19

por Milena Mendes

 

Parte 2

 

SETEMBRO

O novo ano letivo se iniciou e, com ele, a liberação de aulas presenciais para todos os níveis de Educação. Pais, exaustos pelo trabalho pessoal e por terem de administrar os estudos dos filhos em casa, celebravam o retorno das aulas às escolas.

 

Tudo parecia ir muito bem. Eu mesma, por muitas vezes, cheguei a duvidar das informações no site oficial da Organização Mundial da Saúde. Num país tão pequeno como a Mongólia, onde mais da metade da população (mais de 1 milhão e meio de pessoas) vive na capital, Ulaanbaatar, estamos mesmo tão protegidos assim?

 

Contrastes na capital mongol, Ulaanbaatar. Fonte: Montsame

 

OUTUBRO

Na parte 1, eu comentei sobre ter-me desligado da universidade internacional onde eu estava trabalhando de julho de 2019 até março de 2020. O motivo principal foi eu não conseguir lidar com o ego e falta de liderança do diretor do departamento de Inglês, meu superior direto no trabalho.

 

Foi uma decisão inflamada por um caso de comentário que fiz a respeito da situação do COVID-19 na Mongólia em uma rede social, e que gerou milhares de compartilhamentos e palavras de ódio dos mongóis a inúmeros estrangeiros que vivem aqui. Esse caso pareceu ser tudo que o diretor precisava para se ver livre daquela que era cotada para substituí-lo eventualmente e o causava desconforto.

 

Eu pedir para sair daquela universidade foi muito difícil. Sempre tive ótimo relacionamento com todos, alunos e funcionários, locais ou estrangeiros. Eu assistia e lia notícias mundiais de pessoas perdendo o emprego devido à pandemia e me bateu uma incerteza sobre a decisão que eu tomava. Mas, eu acreditei que era o melhor caminho em que eu deveria seguir.

 

Comecei a dar aulas em casa, online, e a aplicar para trabalhos em outras instituições. Cheguei a trabalhar por quase três meses numa rede de ensino de Inglês internacional, até que recebi uma ligação: aquele diretor com quem eu não lidava bem na universidade estava saindo da instituição, e o diretor geral queria que eu entrasse na administração do departamento de Inglês. Não só eu voltaria a trabalhar num local que eu amava, mas não seria apenas professora mais, seria líder. Em 5 de outubro, meu trabalho começou!

Números de COVID-19 na Mongólia. Fonte: Organização Mundial da Saúde

 

Consciente dos muitos desafios que eu teria, principalmente porque os alunos de Inglês não tinham tido aula online ainda (o ex-diretor cancelara o curso durante a pandemia), tudo que eu queria era poder realizar um bom trabalho para o departamento e a empresa.

 

 

NOVEMBRO

O trabalho ia bem, a despeito das muitas dificuldades enfrentadas. Até que em 11 de novembro veio a notícia: tivemos o primeiro caso de contaminação local do coronavírus. Era o que o Governo mais temia que acontecesse, visto a precariedade no serviço hospitalar no país e o pequeno número populacional.

 

Eu, particularmente, fiquei muito abalada. Até então, éramos reféns da falta de liberdade para entrar e sair do país, mas estávamos seguros aqui. Agora, a sensação passava a ser de estarmos reféns de ir e vir mas com um perigo enorme em nosso meio.

 

A infecção foi confirmada em um caminhoneiro que realizava viagens entre a Mongólia e a Rússia. As fronteiras terrestres estavam fechadas para movimentação de pessoas, mas não de bens. Esse homem, seguindo regulamentações locais, cumpriu o período de duas semanas a três semanas em quarentena num estabelecimento determinado pelo Governo. No entanto, bem como o Francês que trouxe o primeiro caso para a Mongólia, também ignorou as recomendações médicas de auto-quarentena em casa por duas semanas.

 

Não apenas ele contaminou familiares, mas participou de um evento numa casa de shows para milhares de pessoas. Poucos dias depois da confirmação do caso, Ulaanbaatar estava em lockdown. Restaurantes, comércios, lojas de fast-food, cafeterias e, mais uma vez, instituições de ensinos -- todos foram forçados a fechar as portas. Por quatro semanas, as ruas eram monitoradas por policiais estrategicamente posicionados para não permitir trânsito de carros nem pessoas.

 

Até 11 de novembro, o número de casos de COVID-19 na Mongólia nem chegava aos 400. Em 29 de Novembro, durante período de suspensão do comércio e trabalhos considerados “não-essenciais”, mais de 152 mil casos de desemprego foram registrados na capital.

 

 

DEZEMBRO

Finalmente, saímos do lockdown! Começaram os planos de Natal, outros para o Ano Novo, retornamos aos escritórios para trabalhar. Foram seis dias de volta ao que parecia ser o mais próximo que chegaríamos de “normal”. Educação ainda online, muitos comércios fechados, mas restaurantes e outras empresas reabertos faziam o fluxo de pessoas parecer normal. As barragens policiais pelas ruas desapareceram, e o trânsito parecia normal. Mas mal sabíamos nós o quão longe estávamos de ter normalidade novamente.

 

Os números de contaminação do vírus aumentavam, espalhados também pelo interior do país, e lá veio mais um anúncio de lockdown. E em lockdown seguimos, teoricamente, até o dia 6 de janeiro.

 

Hoje, 30 de dezembro, já são 1.175 casos totais no país até o fechamento deste texto. Apesar dos rumores locais da primeira morte por COVID-19 no país ter acontecido semana passada, o site da OMS ainda marca zero morte. O Governo mongol agiu cedo e rápido, apesar dos erros cometidos, e nos levaram 11 meses para chegarmos a 400 casos. Em um mês, esse número já triplicou, talvez por puro descuidado da população.

 

Eu não sei quais são seus planos para o Ano Novo. Mas eu desejo, e sei que desejam também os milhões de profissionais de saúde que estão encarando essa pandemia cara-a-cara diariamente, que você tenha consciência da necessidade de contenção desse vírus. Não é porque vacinas já estão sendo distribuídas que devemos relaxar e seguir a vida. Ela não está normal, e não voltará a ser normal por um bom tempo.

 

Feliz 2021!

Willy Macedo
Stetnet
O Imparcial