
Era uma vez uma geração que não viveu em contos de fada, mas que construiu sua própria epopeia com as mãos, com suor e, acima de tudo, com um senso de comunidade que hoje parece folclore. Nós estamos indo embora. Aos poucos, silenciosamente, como se desligássemos os aparelhos de uma sala de estar depois de uma longa e boa festa. Somos os quarentões, cinquentões, sessentões – a geração de ouro que agora prepara as malas para uma viagem sem volta.
Lembro-me de que nosso mundo era pintado com cores diferentes. As manhãs cheiravam a grama molhada e a café passado, não a notificações de celular. Nossos heróis não eram influencers digitais, mas os avós que contavam histórias de tempos idos, os pais que trabalhavam de sol a sol, os professores cuja palavra era lei – e a lei era respeitada. Éramos a última fornada que ouviu, de verdade, os conselhos dos mais velhos. Não por obrigação, mas porque a sabedoria deles era o alicerce de nossas vidas.
Nossa trilha sonora não agredia os ouvidos; conversava com a alma. Do rock revolucionário que ecoava em garagens aos refletes hippies de Woodstock, das baladas pop que embalaram nossos namoros aos sambas que animavam os bailes de clubes. Fomos testemunhas oculares da história: vimos o homem pisar na Lua pela TV preto e branco, acompanhamos guerras distantes com um misto de temor e esperança, e crescemos sob a proteção – ou sombra – dos militares, em um país que ainda respirava ar de inocência.
Ah, os carnavais dos clubes! As festas de debutantes! Os namoros que começavam com bilhetinhos dobrados e terminavam em casamento – muitos de nós casamos com o primeiro amor e, pasmem, seguimos juntos, celebrando décadas de parceria. Tínhamos dois meses de férias para descobrir o mundo, inventar brincadeiras, nos perder no tempo. Não tínhamos pressa. O mundo esperava.
Estudávamos em escolas e faculdades públicas com orgulho. Haveria plano de saúde? Havia. Haveria emprego? Havia. Haveria tempo para viver? Havia. Tínhamos algo que hoje soa a lenda urbana: amor ao próximo. Não o amor de redes sociais, mas o que se praticava no dia a dia: o vizinho que empreitava o ovo, o amigo que consertava o carro, a família que se reunia aos domingos sem celulares à mesa.
Somos uma edição limitada. Cada partida nossa é a queima de um livro raro, cheio de anotações nas margens, de histórias sublinhadas, de lições aprendidas na prática. Deixamos um legado de trabalho duro, de ética, de respeito e de amor verdadeiro. Mas olhamos para o mundo que ajudamos a construir e nos perguntamos: o que ficará? O que será das cidades que pavimentamos, das instituições que fortalecemos, dos valores que cultivamos?
Este não é um lamento, mas um alerta suave. Um convite para que todos os quarentões, cinquentões e sessentões parem por um momento e se reconheçam como privilegiados. Privilegiados por terem vivido em uma era única, onde o humano ainda era o centro de tudo.
Aproveitemos enquanto podemos. Contemos nossas histórias aos netos. Ensine-lhes o valor de um abraço apertado, de um olho no olho, de uma música que não precisa de autotune para emocionar. Porque nós estamos indo embora. E o mundo que deixamos é o mesmo que um dia herdamos – só que agora, com menos amor e mais pressa.
Você é uma edição limitada. Um ser humano que marcou a história não com likes, mas com marcas profundas no coração de quem amou. Quando a última página dessa edição for virada, que possamos fechar o livro com a certeza de que valeu a pena cada linha.
Pense nisso. E repasse esta mensagem não com tristeza, mas com orgulho. Porque fomos dourados. E o ouro, mesmo quando guardado, não perde seu brilho.