Há uma sabedoria antiga e um tanto crua que diz: “Quando o pássaro está vivo, come formigas. Quando o pássaro morre, as formigas comem o pássaro.” Não é uma frase bonita para postar em um quadro decorativo da sala de jantar, mas carrega a verdade mais nua e crua sobre a condição de tudo o que vive: a impermanência.
Pensamos no mundo em blocos estáticos. O forte e o fraco. O que come e o que é comido. O poderoso e o submisso. Criamos uma hierarquia imaginária e nos apegamos a ela como se fosse uma lei gravada em pedra. Esquecemo-nos que a vida é um rio, nunca o mesmo, sempre fluindo e mudando de curso.
O homem bem-sucedido que pisa no estagiário para subir mais um degrau esquece que os degraus podem escorregar. O rico que ignora o mendigo na calçada não percebe que a calçada é o mesmo chão que ambos pisam, e que a distância entre um terno italiano e um cobertor surrado é, às vezes, de apenas alguns meses de má sorte. As circunstâncias são um mestre caprichoso, e elas podem mudar o enredo da nossa história num piscar de olhos.
A ilusão do poder é a mais perigosa. “Você pode ser poderoso hoje”, diz a voz sábia, “mas lembre-se: o tempo é mais poderoso do que você.” O tempo corrói impérios, apaga nomes outrora gloriosos e transforma heróis em notas de rodapé. Nenhuma fortuna, nenhum título, nenhuma aura de invencibilidade é páreo para a passagem silenciosa e implacável do tempo. Ele é o grande nivelador.
E talvez a metáfora mais perfeita sobre a delicadeza desse equilíbrio seja a da árvore e do fósforo. Uma única árvore, em sua generosidade silenciosa, é capaz de produzir a matéria-prima para um milhão de fósforos. Mas basta um único palito desses, uma minúscula centelha, para reduzir a mãe de um milhão à cinza. É a lição final sobre a humildade: a grandeza pode ser derrubada pela menor das coisas. O todo pode ser destruído pela parte. Um gesto de arrogância pode incendiar uma vida inteira.
Por isso, no fim das contas, diante dessa roda-gigante de fortunas onde hoje estamos no topo e amanhã podemos estar embaixo, só resta uma atitude que faz sentido: a bondade. Não uma bondade calculada, do tipo “vou ser legal para que o universo me retribua”. Mas uma bondade genuína, que surge do entendimento de que somos todos passageiros frágeis no mesmo trem.
Seja bom e faça o bem. Não porque é virtuoso, mas porque é inteligente. Porque é a única moeda que, independente de quem está por cima ou por baixo, nunca perde o seu valor. Porque no grande banquete da vida, hoje podemos ser o pássaro, e amanhã, as formigas. E tudo bem. Faz parte do ciclo. O que não pode fazer parte do ciclo é a crueldade desnecessária na viagem.
A vida é curta demais para ser pequena.
