Receber o diagnóstico de apneia do sono frequentemente traz alívio. Após anos sofrendo com cansaço extremo, sono fragmentado, irritabilidade e dificuldade de concentração, o paciente finalmente entende a causa. Familiares também sentem o alívio ao descobrir que o ronco intenso e as pausas respiratórias noturnas têm nome e tratamento.
No entanto, o diagnóstico não é o fim da jornada — é apenas o começo. A apneia do sono é uma condição crônica que exige cuidado contínuo. Estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes abandona o tratamento nos primeiros 12 meses, mesmo sabendo dos riscos envolvidos.
O CPAP é eficaz, mas o início pode ser desafiador
O principal tratamento para apneia moderada a grave é o CPAP (Continuous Positive Airway Pressure), aparelho que entrega pressão positiva contínua para manter as vias aéreas abertas durante o sono. Quando usado corretamente, o equipamento reduz o ronco, melhora a qualidade do sono, aumenta a disposição diurna e diminui significativamente os riscos cardiovasculares, como hipertensão, infarto e AVC.
Apesar dos benefícios claros, muitos pacientes enfrentam barreiras logo nas primeiras semanas:
- Desconforto com a máscara facial
- Vazamentos de ar
- Ressecamento nasal ou irritação
- Sensação de sufocamento
- Claustrofobia ou dificuldade para pegar no sono com o aparelho
Essas queixas são comuns e esperadas no período inicial, mas frequentemente levam à desistência quando não há suporte adequado.
Falta de acompanhamento é um dos principais vilões
De acordo com a médica Priscila Kalil Morelhão, especialista no tema, o uso do CPAP não é um evento isolado, mas um processo de adaptação que exige tempo, ajustes e orientação profissional.
“Assim como óculos precisam de regulagem e próteses demandam período de adaptação, o CPAP também precisa ser personalizado para cada rosto, respiração e rotina de sono”, explica a especialista.
Sem acompanhamento próximo — que inclui troca de máscaras, ajuste de pressão, uso de umidificadores, técnicas para aliviar o desconforto nasal e estratégias para lidar com a ansiedade —, qualquer obstáculo pode se tornar motivo definitivo para abandonar o tratamento.
Com suporte adequado, a maioria supera as dificuldades iniciais
Quando o paciente recebe orientação contínua e os ajustes necessários são feitos, a experiência muda radicalmente. O aparelho deixa de ser um incômodo e passa a ser visto como um aliado. Os benefícios aparecem rapidamente: mais energia ao acordar, melhor humor, maior concentração e redução dos riscos à saúde.
Abandonar o tratamento, por outro lado, significa retomar os sintomas e manter os perigos associados: maior probabilidade de alterações cardiovasculares, problemas de memória, distúrbios de humor e queda na produtividade.
Tratar apneia é um processo, não um evento
Para Priscila Kalil, o segredo do sucesso não está apenas no aparelho em si, mas no cuidado sustentado ao longo do tempo. “Tratar a apneia do sono é um processo, não um evento. Quando bem conduzido, o resultado não é apenas dormir melhor, mas viver melhor.”
A mensagem é clara: o diagnóstico é um alívio, mas a persistência no tratamento, com o suporte necessário, é o que realmente transforma a qualidade de vida do paciente.
#Dra. Priscila Kalil Morelhão é Fisioterapeuta formada pela Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná) de Jacarezinho. Mestrado e Doutorado na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente) com período de intercâmbio na Universidade de Sydney–Austrália. Pós-doutorado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente professora e pesquisadora no Instituto do Sono-SP e atua como fisioterapeuta em sono na clínica Marchiotto Saúde Sustentável. Instagram:@priscilakalilmorelhao

