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Sinomar Calmona
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Existem dias que não cabem no calendário; eles transbordam para a eternidade. Para um comunicador, a carreira é feita de palavras, mas há momentos em que as palavras parecem pequenas diante da magnitude do que os olhos testemunham. Em 29 de maio de 1983, eu não era apenas um repórter de campo da Rádio Piratininga; eu era uma testemunha ocular da história, pisando no gramado sagrado do Maracanã no dia em que o gigante atingiu seu ápice.
Era a final do Campeonato Brasileiro. De um lado, o Flamengo de Zico e Adílio; do outro, o Santos de Pita e Serginho Chulapa. Mas o verdadeiro protagonista já estava lá antes mesmo do apito inicial: o público. 155.235 almas pagantes. Um mar humano que parecia fazer o concreto pulsar. Olhar para cima, das beiras do gramado, era ver um horizonte de gente que não terminava nunca.
Lembro-me de sentir o impacto sonoro. Ao lado dos meus mestres da equipe radioesportiva — o narrador Sergio Jorge Alves e os comentaristas Luiz Semensati e Wilson Matta —, eu tinha a missão de traduzir em som o que era indescritível. Pelo microfone, levávamos a Presidente Prudente e região o calor de um Rio de Janeiro em transe.
Lá embaixo, a poucos metros de mim, o desfile de craques era hipnotizante. Vi Zico abrir o placar com meros 50 segundos, uma explosão que fez o chão tremer sob meus pés. Vi a elegância de Adílio e a raça de Leandro. Do lado santista, a imponência de Chulapa e o talento de Pita. Era o futebol em seu estado mais puro, jogado por deuses que, naquela tarde, pareciam mortais ao alcance das minhas perguntas de campo.
Mas o Maracanã de 83 também era o palco do inesperado. No fim daquela vitória rubro-negra por 3 a 0, a tensão transbordou. Vi de perto a confusão generalizada quando Paulo Isidoro se desentendeu com os fotógrafos da Placar e da Manchete. O clima de festa se misturou ao caos do gramado, um retrato de um futebol que era visceral, dramático e absolutamente inesquecível.
Hoje, olhando para trás, entendo que aquele microfone da Piratininga foi meu passaporte para a imortalidade esportiva. Ter feito parte daquela transmissão não foi apenas um trabalho; foi um privilégio que moldou minha visão sobre a comunicação.
Dizem que o rádio é o teatro da mente. Mas, naquele dia, para este repórter que vos escreve, o rádio foi o coração batendo no compasso de 155 mil vozes. Uma experiência que carrego comigo como o troféu mais valioso da minha jornada na crônica esportiva.
Ficha Técnica da Memória:
- Data: 29 de maio de 1983
- Local: Estádio do Maracanã (RJ)
- Equipe Rádio Piratininga: Sergio Jorge Alves (Narrações), Luiz Semensati e Wilson Matta (Comentários), Sinomar Calmona (Reportagem de Campo).
- Placar: Flamengo 3 x 0 Santos (Gols: Zico, Leandro e Adílio).

Equipe Rádio Piratininga: Sergio Jorge Alves (Narrações), Luiz Semensati e Wilson Matta (Comentários), Sinomar Calmona (Reportagem de Campo).

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