Quando ficamos presos 3 horas num elevador em Zurich

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Sinomar Calmona

O Porto ainda pulsava em meus pés. Os 42 quilômetros da maratona haviam ficado para trás em 2018, mas a verdadeira jornada emocional estava apenas começando. Eu estava na Europa a convite de amigos muito especiais: Lucas e Matheus. Os meninos que conheci em Presidente Prudente haviam se tornado gigantes do outro lado do oceano, e tive o privilégio de acompanhá-los em uma turnê de uma semana que culminaria em Zurique, na Suíça.
Muita gente não imagina, mas a Suíça abriga uma das maiores colônias de imigrantes portugueses do mundo. São trabalhadores que deixaram suas aldeias — a apenas duas horas de voo dali — para construir a vida. Eles não vêm do outro lado do mundo, estão perto de casa, mas a saudade é a mesma. Durante 25 anos, Lucas e Matheus se tornaram a trilha sonora dessa saudade. Suas músicas eram o elo com a juventude que esses imigrantes deixaram em Portugal. Estar ali com eles, hospedado no hotel Ibis ao lado do aeroporto e passeando de bondinho pela cidade, era ver o triunfo da nossa gente em solo estrangeiro.
Naquela noite de sábado, o termômetro marcava 0°C. Jantávamos em um restaurante português no oitavo andar de um prédio antigo. O ambiente era de festa; a dupla era ovacionada por onde passava. O compromisso seguinte era o show no Clube Português de Zurique, à meia-noite. Às 23h15, entramos no elevador: eu, meu filho Murilo, Lucas, Matheus e três amigos portugueses. Sete pessoas em um cubículo feito para seis.
No terceiro andar, o destino travou. Um estalo seco, o elevador parou e o pânico começou. Assistencia chega em “Fünf Minuten” (15 minutos), prometeu o técnico pelo interfone direto da Alemanha. Mas na terra dos relógios, o tempo parou. Os minutos viraram horas. O calor de sete corpos transformou o frio glacial lá fora em um vapor sufocante dentro da cabine. A claustrofobia me mordia; suava frio, tirei as blusas e fiquei apenas de camiseta, sentindo uma sensação de morte iminente enquanto Lucas tentava nos distrair com piadas e Matheus gritava pelas frestas para avisar o pessoal lá embaixo.
Somente às 2h da manhã, os bombeiros voluntários chegaram e destruíram o elevador para nos libertar. Ao sair, possesso pela tensão, desabafei com o comandante em inglês: “Na minha cidade, no interior do Brasil, nossos bombeiros chegariam em dez minutos!”.
Mas o show não podia esperar mais um segundo. Assim que os pés tocaram o chão, Lucas e Matheus saíram “voando”, correndo desesperados para o local do evento. No Clube Português, o público já sabia do incidente e aguardava em uma mistura de angústia e prece. Outro artista se apresentava para segurar a plateia, mas o coração de todos estava naquele elevador conosco.
Quando eles finalmente cruzaram a porta e subiram ao palco, a cena foi digna de cinema. Foram ovacionados por uma multidão que chorava e aplaudia, aliviada por ver seus ídolos sãos e salvos após o susto. Ver aqueles meninos de Prudente, após horas de terror, serem recebidos com tanto amor por milhares de imigrantes, foi a maior recompensa que eu poderia ter.
Sobrevivemos. Mas até hoje, se posso escolher, sigo pelas escadas. A liberdade de respirar, afinal, é o que nos mantém no ritmo da vida.

LUCAS E MATHEUS RECEPCIONADOS PELOS FAS NO RESTAURANTE PORTUGUES DE ZURICDH, NA SUIÇA

PRESOS NO PEQUENO ELEVADOR ; NOS PRIMEIROS MINUTOS A GENTE AINDA RIA E BRINCAVA, MAS DEPOIS VIERAM MOMENTOS TENSOS

PESSOAS OBSERVAVAM O ELEVADOR PRESO NO TERCEIRO ANDAR, ENQUANTO OS BOMBEIROS COMEÇAVAM A CHEGAR

BOMBEIROS PASSAVAM AS ORIENTAÇÕES ANTES DO ARROMBAMENTOD A PORTA
LUCAS E MATHEUS, FINALMENTE NO PALCO DO CLUBE PORTUGUES DE ZURICH; PUBLICO AGUARDOU PACIENTEMENTE A CHEGADA DA DUPLA PRUDENTINA QUE SÓ COMEÇOU A CANTAR AS 2 DA MANHÃ
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SALÃO LOTADO NO SHOW DE LUCAS E MATHEUS EM ZURICH, NA ZUIÇA