Sinomar Calmona
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Quem vê os passos longos que dou pelo mundo hoje, talvez não imagine onde eles começaram. Começaram calmos, descalços, no vão de uma casa de madeira perto do Tiro de Guerra, em Presidente Venceslau. Aquela casa tinha um espaço embaixo, uma espécie de pequenas palafitas, onde eu conseguia ficar sentado, protegido do sol. Ali, o chão não era apenas chão; era uma areia fofa, moldável, que funcionava como a tela em branco mais perfeita que uma criança poderia desejar.
Não tínhamos computadores, celulares e mal tínhamos brinquedos. Eu mesmo construía os meus com pedaços de madeira. E que felicidade ter sido assim! Sem telas para me dizerem como o mundo era, tudo dependia exclusivamente da minha imaginação. Naquela terra fofa, eu passava os dias criando os universos que sonhava viver.
Havia o “mundo gelado”. Eu esculpia montanhas imaginárias na areia e fingia suportar o frio mais extremo. Décadas mais tarde, a vida adulta me levou exatamente para aquele cenário: as montanhas nevadas de Ushuaia, no extremo da Argentina, bem no final da Cordilheira dos Andes. Olhando para além daquele horizonte onde a Antártida começa, percebi que eu já conhecia aquele lugar; eu já havia estado ali, debaixo da minha casa de madeira.
Nas minhas leituras devoradoras de gibis, Berlim e as histórias da Guerra Fria pareciam um mistério distante. Na minha cabeça de menino, eu tentava desenhar na areia as fronteiras de um mundo dividido. Quis o destino que, em 1990, eu estivesse morando exatamente lá. Assisti de perto à histórica queda do Muro de Berlim, transitando entre a Alemanha Oriental e a Ocidental, vivenciando o palco vivo da história que antes só existia no papel de gibi e nos meus desenhos de terra.
Mas a minha maior fascinação era o deserto. Aquela areia venceslauense se transformava em infinitas dunas. Eu passava dias simulando travessias, construindo pequenos fortinhos que imitavam a Legião Estrangeira e as fortificações francesas que eu via nas ilustrações. O deserto sempre me fascinou porque a viagem por ele é, no fundo, um deserto interior — um encontro com os nossos próprios limites. E os sonhos da infância me desafiaram a correr: em 2015, encarei a Maratona do Deserto do Atacama, no norte do Chile; em 2017, cruzei as dunas reais na Maratona do Deserto do Saara. Cada passo naquelas arenas imensas era um tributo ao menino que brincava na terra.
Havia também a Muralha da China. Eu via alguma passagem rápida nos gibis e pensava: “Nossa, como deve ser o mundo do outro lado?”. Sonhei a vida inteira com aquele lugar. Em 2019, vivi a epopeia de correr uma maratona sobre os degraus milenares da própria Muralha da China.
Olho para trás e vejo que a minha vida tem sido uma sucessão de epopeias maravilhosas, todas patrocinadas por aquele garoto de Presidente Venceslau. Idealizar o mundo brincando na infância não tem preço. Essa capacidade de sonhar acordado foi o maior combustível que recebi; é o que me traz estímulo, o que me dá uma motivação inabalável até hoje.
E quer saber de uma coisa? Esses sonhos não param nunca. Eu guardo comigo outros desejos profundos que desenhei naquela mesma areia quando era criança, e eu sei que ainda vou realizá-los. O mundo continua grande, mas enquanto houver estrada pela frente, eu continuarei correndo atrás do menino que me ensinou a voar sem sair do chão da nossa casa de madeira.



