Há ausências que o tempo não resolve — apenas ensina a conviver.
Vinte anos depois de sua partida, Jacintho Ferreira da Silva continua presente na memória afetiva de Presidente Prudente como poucos nomes conseguiram ser.
Tito Júnior não era apenas um cronista. Era um intérprete do cotidiano.
E sua trincheira diária tinha nome, sobrenome e alma: a inesquecível coluna “Carona”, do jornal O Imparcial — talvez o espaço mais aguardado, mais comentado e mais lido de sua época.
Quem viveu aquele tempo sabe: abrir o jornal sem passar pela “Carona” era como deixar o café esfriar na mesa.
O HUMOR QUE TRADUZIA A VIDA
Tito tinha um talento raro — daqueles que não se aprendem, não se ensinam, não se repetem.
Ele pegava o trivial e devolvia extraordinário. Transformava o pequeno em essencial. Fazia rir — mas, sobretudo, fazia pensar.
E fazia isso com uma leveza que só os grandes dominam.
Suas crônicas eram pinceladas do dia a dia, carregadas de ironia fina, observação aguda e uma humanidade que abraçava o leitor. Ele não escrevia apenas sobre a cidade — ele escrevia para a cidade.
E a cidade respondia.
O MEDO DE PARAR, A CERTEZA DO LEGADO
Havia dias em que Tito vacilava. Momentos difíceis, silenciosos, em que a tristeza parecia maior que as palavras.
Falava, às vezes, que não voltaria a escrever.
E eu insistia, quase em tom de apelo:
— Pelo amor de Deus, Tito… sua crônica é única.
Talvez ele não tivesse plena dimensão do que representava.
Mas nós sabíamos.
Sabíamos que, no dia em que ele partisse — e isso um dia aconteceria — não surgiria outro igual.
E não surgiu.
A COLUNA QUE VIROU HISTÓRIA
A “Carona” não era apenas uma coluna. Era um hábito. Um encontro. Um espelho da cidade.
Entrou para a história como um dos mais incríveis espaços de leitura do cotidiano prudentino.
E, mais do que isso, como prova de que o jornalismo também pode ser afeto, memória e identidade.
Hoje, duas décadas depois, o silêncio daquele espaço ainda ecoa.
O VAZIO QUE PERMANECE
Há talentos que são substituídos. Outros, não.
Tito Júnior pertence à segunda categoria.
Faz falta no riso fácil que não temos mais.
Na observação certeira que ninguém repete.
Na crônica que começava despretensiosa e terminava nos desmontando por dentro.
Faz falta no jornal.
Faz falta na cidade.
Faz falta na vida.
E talvez essa seja a maior prova de sua grandeza:
vinte anos depois, ainda sentimos.
E ainda procuramos, em vão, por uma nova “Carona” — sabendo, no fundo, que algumas viagens são únicas… e irrepetíveis.

