O picadeiro foi desmontado!

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Acordei cedo. A rua ainda estava silenciosa, algo raro numa manhã de segunda-feira. Lá de cima, a vista da janela é sempre a mesma: o vai e vem dos carros, a vida correndo apressada. Mas hoje há algo diferente. As bandeiras, que por dias pintaram os parapeitos como um jardim amarelo e verde, já estão sumindo. O país está desmontando o circo.

Como editor, passei os últimos dias vendo o mundo parar. Imagens fortes rodaram o globo: homens de terno abraçados, jogadores de joelhos, milhões de olhos vidrados em uma tela. Vi a dor sincera, desesperada, quase visceral, estampada no rosto de torcedores. Um deles, tão emocionado que parecia ter perdido tudo, arrancava os cabelos. Perdemos. Mas, na briga dos fatos contra a emoção, me perguntava: o que, de fato, se perdeu?

Deixo aqui o registro de um repórter veterano que já viu muita coisa. Não vi nenhum caixão coberto pela bandeira nacional. Não houve enterro, nem velório. Perdemos uma taça de metal dourado que enfeitará a sala de outro país. Ponto final.

E é aí que a crônica da nossa realidade se afina. Onde estavam essas lágrimas que agora molham os tapetes dos bares quando a liberdade de imprensa, que garanto a vocês todos os dias, é sufocada? Onde está a união nacional que víamos nas arquibancadas quando a educação vai para o buraco ou quando a fome volta a bater nos lares? Sinto um silêncio ensurdecedor nessas horas. A paixão que move montanhas no futebol parece se aposentar quando a própria casa ameaça pegar fogo.

Sou obrigado a confessar: antigamente, eu vibrava. A garganta doía, o coração disparava. Hoje, talvez pelo peso dos anos e das manchetes que escrevi, assisti impassível. Ganhar ou perder já não me toca. Aprendi, na marra da apuração diária, que amar o Brasil não é uma febre de noventa minutos. É um ato de resistência diário. É defender a história que contamos, a Constituição que juramos proteger e o direito do nosso povo de dormir com a porta aberta e a consciência tranquila.

Por algumas semanas, o espetáculo cumpriu seu papel. Houve pão, cerveja barata e a feliz distração da crise. Mas o picadeiro já foi desmontado. As luzes se apagaram.

E a velha realidade, essa companheira chata e insistente, está aí, batendo à porta com a mesma fome de sempre. As dificuldades não sumiram num gol, nem vão se dissolver por causa de uma derrota.

No expediente de hoje, um dos nossos jovens repórteres comentou, com uma lucidez que me fez parar o café: “Se a gente gastasse metade da energia que gastamos discutindo escalação para defender o país, o Brasil seria uma potência.”

Ele tem toda a razão.

Que esses dias de comoção sirvam de lição. Já chega de arquibancada. Já chega de viver de emoções descartáveis, que vêm e vão como o vento. Hoje, ao fechar esta edição, convido vocês, leitores, a vestirem uma camisa que não tem número nas costas, mas tem o peso da nossa história. A camisa que não se tira no intervalo.

Porque troféus enchem estantes e viram notas de rodapé.
A liberdade, essa sim, constrói gerações inteiras, capítulo por capítulo.

E esta, meus caros, quando perdida, não se recupera nos pênaltis. Não há prorrogação que salve.