A cidade silenciosa dos espaços vazios

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Houve um tempo em que as esquinas da cidade pareciam tomadas por uma febre sobre duas rodas. Eram lojas de bicicletas brotando em cada esquina, vitrines reluzentes prometendo a liberdade do vento no rosto e trilhas de fim de semana. Mas o tempo corre rápido, e o vento mudou de direção. As lojas fecharam, os aros empenaram e a poeira cobriu o que antes era o auge do momento.
Logo veio o beach tennis. De repente, a areia litorânea invadiu o asfalto urbano. Mini clubes nasceram como cogumelos, com doze quadras iluminadas onde antes funcionavam antigos galpões. Os lugares fervilhavam. Aos sábados de manhã, as filas dobravam o quarteirão. Raquetes coloridas, roupas de grife esportiva e o som seco da bolinha batendo na rede. Durou pouco. Hoje, quem passa por essas quadras nos horarios antes lotados ja encontra o vazio. Para tentar reter o público, instalam telões em dias de jogo e promovem festas com entrada franca. A areia continua lá, mas a alma do esporte já migrou para outro lugar — ou está sumindo de vez. Mais uma modinha indo embora…
Esse sumiço não é exclusividade das novidades. As antigas quadras de saibro, tradicionais, caras e de manutenção complexa, hoje parecem monumentos ao abandono nos clubes e condominios. No passado, era preciso disputar espaço no raqueteiro às dezessete horas para conseguir jogar uma partida no final da tarde até tarde da noite. Hoje, às 19 horas, o silêncio impera sob os refletores acesos. Nos condomínios, a cena se repete. Quadras muradas, com alambrados perfeitos, construídas com o dinheiro de todos os moradores que um dia juraram usá-las, agora descascam sob o sol. O mesmo acontece com as piscinas. Prédios gigantescos ostentam complexos aquáticos com piscinas integradas, mas, se perguntarmos ao morador qual foi a última vez que deu um mergulho, a resposta será um suspiro de amnésia. Onde foi parar todo mundo?
A resposta ecoa no silêncio dos quartos. A juventude e a classe média recolheram-se para dentro de si mesmas, anestesiadas pelas telas dos celulares. Os notebooks já ficaram obsoletos; agora, o mundo cabe na palma da mão. O isolamento voluntário gera um prejuízo psicológico silencioso, uma individualização que alimenta o egoísmo e extingue a convivência com o diferente. Nas escolas, a convivência se equalizou por camadas; os iguais só se relacionam com os iguais, enquanto a diversidade real — aquela que misturava o rico, o remediado e o quebrado na mesma calçada ou na mesma escola pública de antigamente — foi substituída pela bolha das redes sociais.
O distanciamento da realidade cria um mundo virtual e asséptico, onde não se aprende a dividir, a tolerar ou a conviver. Enquanto as quadras e piscinas da cidade seguem vazias, o vício digital consome os domingos inteiros de uma geração que só desce do quarto para almoçar quando a mãe chama. Fora dali, a vida cobra o seu preço, às vezes de forma trágica e silenciosa, nos labirintos da mente de quem se perdeu no isolamento. A cidade continua lá fora, mas seus espaços de encontro viraram apenas cenários de um tempo que não volta mais.