A professora Édima de Souza Mattos costumava dizer que, mesmo após ver seus três filhos criados, o destino a fez passar pelas dores do parto mais duas vezes: ao defender seu doutorado na Unesp e ao ingressar no pós-doutorado na USP. Para uma mulher negra, nascida no interior da Bahia em 1942, cada título conquistado não era apenas vaidade acadêmica; era o nascimento de uma nova era. Nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, Édima despediu-se sem dores. Foi embora antes do combinado, em paz, enquanto dormia. Aos 83 anos, ela deixou os canteiros da vida terrena para se tornar, definitivamente, semente.
Até seu último suspiro, Édima ignorou o conceito de calmaria. Estava na ativa, liderando projetos entre a Unoeste e o Ministério da Saúde. Filha de um minerador e de uma dona de casa, ela chegou a Presidente Prudente aos 10 anos, após seus pais trocarem o solo baiano pelas lavouras de algodão paulistas. Aos 16, já lecionava inglês. Dali em diante, foram mais de seis décadas dedicadas a transformar vidas através do conhecimento. Ela sabia que, em um país onde apenas 16% dos professores universitários são negros, sua presença no topo da academia era um manifesto político e social.
Sua militância ganhou corpo em 1988, no centenário da Abolição. Nos anos 1990, Édima percorria escolas públicas de Prudente para combater a evasão escolar entre jovens afrodescendentes. Dizia que o negro pode chegar onde quiser. Sua própria jornada provava isso: para se titular, enfrentou madrugadas em claro e escolheu, por vezes, o livro em vez do prato de comida. Décadas mais tarde, em 2022, esse esforço foi coroado com o prestigiado Prêmio Ruth de Souza.
Nos últimos anos, sua mente brilhante cruzou as fronteiras das Letras para abraçar a saúde dos mais vulneráveis na Faculdade de Medicina da Unoeste. Édima foi peça-chave na articulação com a Opas e o Ministério da Saúde, além de lutar incansavelmente pelo sonho de ver implantado o Ambulatório de Anemia Falciforme no Hospital Regional. Também levou dignidade às mulheres presas em Tupi Paulista e promoveu a inclusão digital de idosos e crianças carentes.
Casada com Eli desde 1970, mãe de Eduardo, Elizangela e Elaine, e avó corajosa, Édima Mattos não nos deixou um vazio; deixou-nos uma estrada pavimentada com coragem. O Varanda Restaurante e as salas da Unoeste perdem o brilho de seus passos, mas Presidente Prudente guarda, em sua história, o eco eterno de uma mulher que viveu para fazer a sua melhor versão. Descanse em paz, professora. Seu legado já é imortal.

