Clovis Moré: homenagem à memória de um ídolo da minha infância

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Clóvis Moré nunca precisou elevar a voz para impor respeito. Bastava começar a falar. O relógio marcava 13h e Presidente Venceslau praticamente parava para ouvi-lo no rádio. Havia algo hipnótico naquele homem de raciocínio veloz, vocabulário impecável e coragem rara. Para muitos, ele era apenas um radialista brilhante. Para quem viveu aquela época, Clóvis foi muito mais: foi uma escola inteira de jornalismo em forma de gente. 
Ainda menino, eu saía correndo da escola em direção à Rádio Presidente Venceslau só para vê-lo trabalhar. O estúdio parecia pequeno demais para a dimensão intelectual daquele homem. Clóvis improvisava como poucos. Não importava o tema. Política, cidade, esporte, injustiça ou crise. Ele desmontava qualquer assunto diante do microfone com uma lógica tão precisa que deixava adversários sem reação. Políticos temiam enfrentá-lo porque sabiam: dali ninguém sairia confortável. 
Mas havia algo ainda maior do que sua inteligência: sua integridade.
Clóvis não se escondia atrás da conveniência. Não dobrava opinião para agradar poderosos. O microfone dele era trincheira e tribuna ao mesmo tempo. Quando considerava algo errado, enfrentava sem hesitar. E fazia isso com elegância quase desconcertante. Criticava duro, mas nunca descia o nível. Talvez por isso fosse respeitado até por quem se sentia atingido por suas palavras.
Filho de Nico e Lourdes Moré, Clóvis nasceu em Presidente Venceslau numa geração moldada pela simplicidade do interior e pela força do trabalho. Ao lado dos irmãos Cláudio, Ivan, Armando, Toninho e Rafael, construiu uma família profundamente ligada à comunicação. O sobrenome Moré acabou se tornando patrimônio afetivo do rádio regional. 
No rádio, Clóvis fez de tudo. Literalmente tudo. Começou na portaria da emissora como recepcionista. Aprendeu operação técnica, foi discotecário, redator, noticiarista, repórter, narrador esportivo, administrador e gerente. Conhecia o rádio por dentro, como quem desmonta um relógio e entende cada engrenagem. 
Talvez por isso tenha se tornado uma espécie de “pai” de tantos profissionais da comunicação do oeste paulista. Ao lado de Esidro Tacca, ajudou a formar gerações inteiras de radialistas e jornalistas espalhados hoje pelo Brasil. Foi também um dos responsáveis pela evolução da Rádio Presidente Venceslau AM e um dos fundadores da Jovem Som FM. 
Mas Clóvis nunca coube apenas no rádio.
Foi também pecuarista apaixonado pela raça Nelore. Enquanto muitos descansavam nos fins de semana, ele mergulhava nos “livrões” de genética bovina e sonhava com grandes campeões. Conquistou títulos importantes em Uberaba com touros que viraram referência nacional. O mesmo homem que dominava um microfone também dominava a arte silenciosa de observar gado no pasto. 
Os anos passaram. Eu fui para Presidente Prudente e o jornalismo me aproximou novamente daquele ídolo da infância. Trabalhamos juntos em O Imparcial. No texto impresso, a genialidade permanecia intacta. Frases limpas. Informação precisa. Nenhuma palavra sobrando. Clóvis escrevia como falava: com clareza e coragem. 
Quando o câncer o levou, ficou um vazio difícil de explicar. Lembro-me do dia em que fui até Venceslau ao lado de Homero Ferreira para seu último adeus. O silêncio daquele momento parecia impossível para alguém que viveu a vida inteira dando voz às pessoas e às cidades.
Hoje, quando vejo tantos debates rasos, entrevistas vazias e opiniões fabricadas para agradar algoritmos, penso em Clóvis Moré. Ele pertencia a um tempo em que jornalistas precisavam ter conteúdo antes de ter exposição.
E tenho certeza absoluta: se estivesse aqui, Clóvis comandaria qualquer grande programa da televisão brasileira. Porque talento verdadeiro não envelhece.
Vira legado.