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A caçada que parou a cidade nos anos 70 e virou lenda no consultório médico
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Na Presidente Prudente do início dos anos 1970, o ritmo da cidade ainda guardava o compasso calmo do interior, onde as notícias viajavam no boca a boca. Bastava o Seu Nicola avisar na porta do armazém para que a fofoca corresse mais rápido que o vento: “Escapou um leão do circo!”.
O circo estava armado lá onde a Avenida Coronel Marcondes encontra a José Bongiovani, pertinho do Parque do Povo (onde hoje é a Churrascaria Guaiba). Naquela época, a região ainda tinha ares de sítio, com matas fechadas e barrancos onde a meninada teimava em brincar. Mas, de repente, o medo tomou conta dos bairros. Boatos e avisos espalharam-se num piscar de olhos. Dizia-se até que cães da Polícia (extinta Guarda Civil) tinham sido soltos na mata para rasto e alguns jamais retornaram, alimentando a fantasia popular de que tinham virado petisco da fera.
A cidade virou uma polvorosa. Quem tinha arma em casa correu para a janela; quem era criança ouvia os mais velhos mandarem trancar as portas, ainda que a curiosidade moleque fizesse parecer que o leão não passava de um gato grande solto no matagal. A Guarda Civil colocou jipes nas ruas vasculhando os arredores, mas a fera continuava arredia, escondida na vegetação perto de onde ficava o antigo Guaíba.
Foi então que entrou em cena o Dr. Washington Siqueira. Médico conhecido na cidade, o doutor era figura de respeito e caçador experiente. Dono de uma peru Chevrolet adaptada, ele recebeu o alerta e não pensou duas vezes: pegou seu rifle e saiu ao resgate da ordem pública. O desfecho não demorou; com tiro certeiro o médico abateu o felino e evitou o que poderia ter sido uma grande tragédia na cidade.
A apreensão deu lugar ao alívio e à fascinação. O Dr. Washington levou o corpo do animal e providenciou sua empalhação. Por anos, quem entrava em seu consultório perto do Hospital São Luiz e da delegacia dava de cara com o imponente leão taxidermizado logo na recepção, acompanhado de uma plaqueta informativa em papel cartão verde-claro. Para os pacientes que esperavam atendimento — e para os meninos da época —, olhar nos olhos daquele leão empalhado era como encarar de frente um pedaço vivo da história de Presidente Prudente.
Com o passar das décadas, o leão do Dr. Washington deixou o consultório e ganhou destino no acervo do Museu Histórico Municipal, imortalizando para sempre o dia em que a selva africana encontrou o sertão prudentino.

